terça-feira, 30 de abril de 2013

Alegria da Torah

Mas, por que a Torá é festejada, concluída e iniciada de novo em Simchat Torá – a última festividade do mês de Tishrei? Não deveria isso ocorrer em Shavuot, no sexto dia do mês de Sivan, quando celebramos o dia em que D’us Se revelou ao Povo Judeu, no Monte Sinai, e lhe deu a Torá? Esta indagação é especialmente pertinente à luz da citação de Rashi baseada nos ensinamentos do Rabi Saadia Gaon, que diz que os Dez Mandamentos, proclamados por D’us no Monte Sinai, 50 dias após os judeus terem saído do Egito, encapsulam todos os 613 mandamentos da Torá. Assim sendo, quando da entrega dos Dez Mandamentos, toda a sabedoria da Torá teria sido outorgada ao Povo Judeu. Por essa razão dizemos que a Torá foi entregue em Shavuot, quando, de fato, o Chumash foi transmitido por D’us a Moshé durante a jornada de 40 anos do Povo Judeu no deserto do Sinai.

A Cabalá ensina que cada vez que ocorre uma data festiva judaica, voltam a ocorrer as revelações passadas, e seus efeitos espirituais voltam a exercer sua influência sobre o Povo Judeu e o mundo. Por exemplo, os judeus foram perdoados do pecado do bezerro de ouro no dia 10 de Tishrei, Yom Kipur. A data se torna, pois, um dia de perdão e misericórdia Divina para todas as gerações subsequentes. De modo semelhante, em cada Shavuot, a Torá é novamente recebida pelo Povo Judeu. Isto significa que esta festividade é o dia do ano em que nossas almas estão mais abertas para receber sua influência, sabedoria e inspiração. A porção da Torá lida nessa festa descreve D’us falando ao Seu povo e lhe dando os Dez Mandamentos, que, como dissemos acima, é um resumo de toda a Torá. Shavuot celebra, pois, o início e a conclusão do recebimento dos Cinco Livros de Moshé, o Chumash. Esta festividade deveria ter sido designada como aquela na qual nos rejubilamos, dançamos com a Torá, terminamos seu ciclo de leitura e o reiniciamos. No entanto, tudo isso acontece em Simchat Torá – a última festividade do mês de Tishrei. Por quê?

As primeiras e as segundas Tábuas da Lei

Os Mestres Chassídicos explicam que em Shavuot celebramos o recebimento das primeiras Tábuas contendo os Dez Mandamentos, enquanto que em Simchat Torá expressamos nosso júbilo por ter recebido as segundas Tábuas – evento ocorrido em Yom Kipur, quando fomos perdoados pelo pecado do bezerro de ouro. Em Simchat Torá nos rejubilamos por ser o último dia das festividades que sucedem Yom Kipur.

O Povo Judeu recebeu dois conjuntos de Tábuas contendo os Dez Mandamentos porque o primeiro foi despedaçado por Moshé. Cinquenta dias após o Êxodo do Egito, D’us se revela perante todo o povo no Monte Sinai, proclama os Dez Mandamentos e ordena a Moshé Rabenu que ascendesse ao Monte para receber as Tábuas da Lei. Quarenta dias depois, quando retorna ao acampamento judaico com as Tábuas, ele constata que o povo estava adorando uma estátua de ouro. Ele quebra as Tábuas – estas não poderiam ser entregues a um povo que acabava de cometer um ato de idolatria em massa – e volta ao cume do Monte para implorar a D’us que perdoasse Seu povo, apesar do terrível pecado. A clemência Divina foi finalmente concedida no 10o dia de Tishrei, Yom Kipur. O sinal de que D’us perdoara o povo foi transmitido por Moshé ao retornar ao acampamento dos judeus portando consigo um segundo conjunto de Tábuas onde estavam gravados os Dez Mandamentos.

Mas havia uma grande diferença entre os dois conjuntos. O primeiro não apenas era a “Palavra de D’us”, mas também a “Escrita de D’us”. As segundas Tábuas, apesar de também ser a “Palavra de D’us”, foram talhadas por Moshé. Esta diferença é altamente significativa.

As segundas Tábuas, produto do esforço humano, tendo sido gravadas por Moshé, perduraram, ao passo que as primeiras, produzidas e graciosamente concedidas pelo Todo Poderoso, não resistiram. O Midrash (Shemot Rabá, 46:1) descreve as segundas Tábuas como “força dupla”, comparando ambas. Era de se esperar que perdurasse o trabalho Divino, que é Eterno, enquanto que o produto de um ser humano, mortal, não. Paradoxicamente ou não, os destinos diferentes dos dois conjuntos são um exemplo de um ensinamento judaico particularmente enfatizado pela Cabalá: aquilo que se consegue sem esforço raramente perdura. A entrega dos Dez Mandamentos, ocorrida em Shavuot, foi uma dádiva dos Céus.

D’us outorgou a Torá ao Povo Judeu sem que eles tivessem que se esforçar para a merecer. O que comemoramos nessa festividade coloca-se em nítido contraste com o que celebramos em Simchat Torá: a conclusão do ciclo de leitura da Torá, quando, transcorrido um ano inteiro, os judeus estudaram, ou ao menos leram, todos os Cinco Livros de Moshé. Shavuot festeja a entrega de uma extraordinária dádiva Divina; Simchat Torá celebra o merecimento dessa dádiva.

É por isso que Simchat Torá, e não Shavuot, marca a conclusão da leitura da Torá. O júbilo verdadeiro e completo por receber algo somente pode ocorrer quando este algo não é, como o coloca o Talmud Yerushalmi, o “pão da vergonha” – ou seja, algo gratuito, pelo qual não se fez por merecer. A expressão significa que a maioria das pessoas se sente envergonhada de receber sem dar em troca: as pessoas não gostam de esmola; preferem fazer por merecer ao invés de receber algo graciosamente.

Ensina o Talmud: “Um indivíduo prefere uma medida de grão resultante de seu próprio esforço do que nove medidas dadas gratuitamente por um amigo”. Quando alguém recebe algo valioso – por exemplo, um jovem que receba uma herança de porte e se torna milionário – obviamente terá uma grande alegria. Contudo, esse júbilo não será tão completo como o que sentiria se a fortuna lhe tivesse chegado através de seus próprios esforços. O mesmo jovem ficaria muito mais feliz e realizado se tivesse iniciado um negócio do zero e ficado milionário. Algo que se recebe de graça geralmente é considerado “pão da vergonha” porque não traz nenhum orgulho ou sentido de realização.

Nenhum comentário:

Postar um comentário