terça-feira, 30 de abril de 2013

Os justos Por: Sérgio Feldman*

O Judaísmo tem um de seus pilares na justiça. Mas definir justiça, não é fácil. 
Há formas diferentes de defini-la e em alguns casos a justiça pode ser “injusta”.
Se fizermos uso apenas de uma conceituação jurídica, isto é possível. Explico: a justiça, em determinadas sociedades pode ser a maneira legal de manter o status quo da injustiça e gerar mecanismos de perpetuação da hierarquia social, das diferenças econômicas, da opressão de uma ou algumas minorias e até do preconceito. Uma estrutura estatal pode servir para que uma classe ou grupo social, uma etnia ou nacionalidade oprima outra. Tudo dentro da lei.
Alguns exemplos: seguir a lei no III Reich seria aplicar as leis racistas de Nuremberg. Seguir a lei na extinta URSS seria seguir os cânones stalinistas de repressão das minorias, da oposição ao sistema e perpetuar a hierarquia do Partido. Assim fazer justiça, pode ser injusto. O regime do apartheid na África do Sul era legalmente sancionado e justificado por uma constituição. Por isso, propomos um foco mais diverso e amplo: olhar pelo senso comum e pela tradição judaica.
Na tradição judaica associou-se a palavra Tzedek = justiça com a palavra Tzedaká = justiça social. Erroneamente traduziu-se esta palavra como sendo caridade. Tzedaká não é caridade. Esta é uma versão cristã, derivada da noção tarda e antiga denominada Charitas. Esta se originou como um paliativo à questão da pobreza. Contém uma elevada dose de bondade e misericórdia, mas não se propõe uma alteração de situação, mesmo se for parcial e relativa. No Judaísmo, não se concebe a pobreza como um caminho, mas como um descaminho. O ideal de pobreza não tem raízes nem valorização no Judaísmo: não há monges e pessoas que se dissociam da realidade, da vida e nem de pequenos prazeres ou certa quantidade de bens materiais, que gerem conforto. Não temos a noção de pecado ao sentir prazer na comida, na bebida e nem na sexualidade conjugal. Tudo deve ser feito na medida certa: sem excessos, de maneira regrada e através da sacralização do profano. O esposo abençoa sua amada no pálio nupcial e se compromete e cuidar dela e tentar satisfazê-la como mulher. É dever conjugal o marido prover sustento, proteção e amor a sua esposa. Os tempos mudaram e as mulheres se emanciparam e são produtivas e independentes. O que resta desta idéia é que não vivemos para não usufruir de bens e prazeres, mas para não fazer deste o objetivo único e maior de nossas vidas. Amar a D-us e amar ao próximo, sem passar fome e sem se privar de viver com qualidade e bem-estar. Assim, nem a pobreza, nem castidade, nem a alienação do mundo e da vida são valores judaicos. A pobreza deve ser combatida com atitudes e gestos no cotidiano e com respeito aos padrões sociais vigentes e à estabilidade social. Analisemos um pouco as vias judaicas mais comuns.
Tzedaká, se possível, deve ser acompanhada de Guemilut Chassadim. Seria não só “dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Não só dar o pão, mas oferecer um emprego ou uma bolsa de estudos. Não se deve estimular a manutenção da pobreza. Assim sendo, empresários que investem na qualidade e nas boas condições de seus empregados dando direitos, assistência médica, e salários justos, estariam fazendo sua parte. O mesmo com todos os que tratam da questão social com algum tipo de preocupação e atitude prática.
E no nível idealizado, mesmo se for um pouco mítico, define-se que o sentido da História seria a justiça de D-us, no final dos tempos. E acabam-se as guerras e acaba-se a miséria e a exploração do próximo. Isto tudo é no sentido social e econômico. Mas há outros níveis. Aqui entram novas compreensões e novos conceitos de justiça. Vamos ampliar a dimensão de justiça a outros aspectos.
Há quem se dedique a trabalhar em educação, por vezes sendo idealista e até ingênuo, por achar que as coisas mudam na escola e nos projetos educativos, criar um novo ser humano, dar-lhe valores, ensiná-lo a ser justo e bondoso, incutir ética e princípios bons. O educador consciente e idealista tem certo senso de justiça e pode ser considerado um justo em potencial. Eu, como educador, percebo-me como ingênuo e idealista, mas não nego nada que fiz e nem a opção de vida que tive. A minha opção foi comunitária.
Há quem faça trabalho social voluntário. Seja ajudando uma creche ou uma comunidade carente. Na Kehilá (comunidade judaica) de Curitiba temos um magnífico exemplo, o da Casa Hai, mantida por uma família que sempre teve a preocupação com estes valores, e que recebe trabalho voluntário de diversos elementos da Kehilá. Digno exemplo de justiça. De forma diferente, e numa mescla de educação e sentido social tivemos a magnífica iniciativa de alguns jovens daKehilá, ao criarem e gerirem por alguns anos o OVO (Organização Vida e Oportunidade). Uma experiência educacional de autogestão juvenil numa favela: educação e auto-estima somadas ao modelo do Habonim Dror (Movimento juvenil judaico). Tanto a Casa Hai quanto o OVO são dois exemplos que a Kehilá de Curitiba deveria se orgulhar e multiplicar. Isso é justiça.
Há os que fazem trabalho comunitário interno na Comunidade. Ativistas de todos os tipos, que ajudam a gerir instituições como a escola, a Kehilá, a Sinagoga e a Chevra Kadisha. Aliás, vale citar o trabalho desta última, com pessoas que cuidam dos falecidos em nossa comunidade, com carinho e de forma voluntária. E a presença desde há muitos anos do sr. Jaime Nudelman, que de maneira discreta, sensível e humana, cuida deste setor. Um entre muitos bons exemplos de justos. Os justos geralmente são discretos, fazem o bem ao próximo sem querer recompensa, nem elogios. A Tzedaká e aGuemilut Chassadim feitas em silêncio, potencializam seu valor. Maimônides dizia que o mais alto grau de Tzedaká era a feita em segredo, sem que o doador seja conhecido e sem que o receptor saiba de quem recebe a ajuda. O silencioso justo esta na periferia da História, nas entrelinhas do texto, na sombra do prestígio e da fama. Eis o segredo. São muitas vezes honrados pelos seus conhecidos, pois merecem sê-lo. Não almejam elogios e nem glória: são modestos. Isto também é justiça.
Diz a tradição que existem alguns justos de nível superior, que vivem em absoluto desconhecimento em cada geração. Seriam trinta e seis justos em cada geração: são os Lamed vavnikim (Lamed, que corresponde ao “l”, é a letra que vale 30; vaf ou vav, o “v” é a letra que vale 6; somados totalizam 36). Os trinta e seis justos mantém a continuidade deste mundo. Na verdade, deles depende a estabilidade, a futura Redenção e o sentido da História. Acho que citei acima alguns personagens do nosso cotidiano que seriam candidatos a Lamed vavnikim. 
Por fim os Justos das Nações. Este é um tema de reflexão. No conceito de Redenção judaica não se salvarão todos os judeus quando vier o Messias. Diferentemente do conceito medieval cristão de Juízo Final, no qual os judeus e outros infiéis seriam condenados e arderiam no Inferno, o conceito judaico é outro. Há uma categoria de pessoas não judias que se salvariam: os Justos das Nações. Gente que não é judia, mas que age de acordo com os valores de justiça, plenos e amplos. São justos mesmo não sendo judeus. E serão redimidos no final dos tempos, na era messiânica. Já os judeus não justos não se salvariam. Ou seja: não se dá um “passaporte à Redenção” aos judeus de fachada, que não agem dentro das normas da justiça. E se abre a Redenção aos Justos entre as Nações.
O termo foi reciclado de maneira justa e correta para designar os não judeus que deram proteção e ajuda aos judeus no terrível período da II Guerra Mundial no qual ocorreu a Shoá ou Holocausto. Os Justos entre as Nações seriam os gentios que se dedicaram a salvar judeus da sanha violenta do nazismo. E no Museu do Holocausto, construído em Jerusalém, que leva o nome de Iad Vashem, há uma árvore plantada em homenagem a cada um dos Justos das Nações, além de um monumento com os nomes de todos os Justos. Personagens como o rei dinamarquês Cristian, o alemão Oskar Schindler, o sueco Raoul Wallenberg, o português Aristides de Souza Mendes, os brasileiros Luis Martins Souza Dantas e a esposa de Guimarães Rosa, que se chama Aracy. Há cerca de seis mil Justos das Nações.
A justiça é a pedra fundamental de qualquer sociedade. Em todos os níveis e em todas as formas. Comece 2008 propondo a si próprio fazer alguma coisa, mesmo que pequena, em prol da justiça.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.

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