sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que é ser judeu?

Pergunta:

O Judaísmo é uma "religião"? O termo "judeu não-religioso" é um contra-senso? Alguém ainda pode ser judeu sem observar as leis e ética da Torá na vida diária? Afinal, o que é ser judeu?

Resposta:

Os judeus desafiam todas as definições convencionais de "povo" ou "nação". Carecemos de uma raça comum, cultura ou experiência histórica. Ao mesmo tempo todos compartilhamos nossos direitos eternos à Terra de Israel, pois exceto em alguns poucos séculos nos últimos 4000 anos a esmagadora maioria dos judeus não viveu ou sequer colocou os pés no país judaico.
No decorrer de nossos mais de 3300 anos de história, o que nos definiu como judeus é um relacionamento e comprometimento. Somos judeus porque D'us nos escolheu para sermos Seu "tesouro querido entre todas as nações… um reino de sacerdotes e um povo sagrado" (Shemot 19:5-6). Somos judeus porque D'us nos escolheu para desempenhar o papel principal na implementação de Seu propósito na Criação: para orientar nossas vidas de acordo com Sua vontade, e desenvolver uma sociedade e comunidade mundial que reflete Sua bondade e perfeição.
A substância desse relacionamento, o mapa desse compromisso, é a Torá. Ela é o conceito Divino de realidade comunicada ao homem, o projeto que descreve o mundo perfeito visualizado por nosso Criador e detalha a maneira como o Inventor da Vida deseja que seja vivida.
Isso poderia parecer definir nosso Judaísmo como uma "religião"; somos judeus porque aderimos às crenças e práticas ordenadas pela Torá. Porém, a própria Torá diz que não é assim.
A própria Torá proclama (Vayicrá 16:16) que D'us "habita entre eles no meio de suas impurezas" – que Seu relacionamento com Seu povo permanece intacto apesar de seu comportamento. Nas palavras do Talmud (Sanhedrin 44a), "Um judeu, embora tenha transgredido, é um judeu."
Segundo a Lei da Torá, o Judaísmo de uma pessoa não é uma questão de estilo de vida ou autopercepção: ele pode ser inconsciente por completo de seu Judaísmo e ainda ser judeu, ou pode-se considerar judeu e cumprir todos os preceitos da Torá e ainda assim não ser judeu.
Em outras palavras, é o relacionamento entre o judeu e seu Criador que define seu Judaísmo – não seu reconhecimento desse relacionamento ou sua concretização na vida diária. Não é o cumprimento das mitsvot ("Mandamentos Divinos") que faz dele um judeu, mas o comprometimento que as mitsvot representam.

A essência de uma transgressão

Este é o significado mais profundo do axioma: "Um judeu, embora tenha transgredido, é um judeu."
O significado simples dessas palavras é que um judeu ainda é um judeu apesar de suas transgressões. Num nível mais profundo, é porque transgrediu que ele é um judeu. Um não-judeu que come chametz (pão fermentado) em Pêssach não fez nada de errado; da mesma forma, se comer matsá na noite do Sêder, isso não tem importância moral ou espiritual. Mas para um judeu, as mitsvot de Pêssach são um componente do seu relacionamento com D'us: ao cumpri-las, ele está concretizando esse relacionamento e estendendo-o à sua vida diária. Se ele as violar, D'us não o permita, está transgredindo – agindo de forma contrária ao compromisso que define sua identidade. Assim, num certo sentido, o fato de um judeu transgredir é não menos uma expressão (embora negativa) de seu relacionamento com D'us que o seu cumprimento de uma mitsvá.
Na verdade, a palavra hebraica mitsvá significa tanto "mandamento" como "conexão". O relacionamento entre os dois significados da palavra pode ser entendido em dois níveis. No nível comportamental, conectamo-nos a D'us por intermédio do nosso cumprimento dos Seus mandamentos. Num nível mais profundo, estamos inexoravelmente conectados a Ele em virtude do fato de que Ele nos escolheu como objeto de Seus mandamentos. Obviamente, esses dois níveis de conexão são dois lados da mesma moeda, a face interior e a exterior da mesma verdade: nossa observância das mitsvot é a manifestação, em nossa vida cotidiana, do vínculo intrínseco entre D'us e Israel.

O elo de seis dimensões

O Zohar, a obra fundamental da Cabalá, expressa esse conceito da seguinte maneira:
Há três conexões ("kishrin") que são limitadas entre si: D'us, a Torá e Israel – cada qual consistindo em um nível acima de um nível, oculto e revelado. Há o aspecto oculto de D'us, e o aspecto revelado; a Torá, também, possui um aspecto oculto e um revelado; e o mesmo ocorre com Israel, que tem tanto os aspectos oculto quanto o revelado.
O Zohar prossegue descrevendo a maneira pela qual a Torá serve como o elo entre D'us e Israel: como a Torá é uma só com seu Divino Autor, e como o povo judeu se conecta com a Torá pelo estudo e observância dos seus ensinamentos.
Mas quais são os elementos "oculto" e "revelado" de D'us, Torá e Israel? E qual é a sua relevância para nossa conexão com D'us pela Sua Torá? O Zohar está dizendo que essas três "conexões" são interligadas em dois níveis, tanto num plano oculto como num revelado. Pois cada um dos três elos interconectados possui tanto uma dimensão explícita quanto uma implícita.
Há o aspecto assim chamado de "revelado" de D'us – aquelas expressões de Sua realidade que Ele escolheu manifestar dentro da existência criada: e há Sua essência "oculta", incognoscível. O judeu, também, tem seu ser manifesto e revelado – a maneira pela qual ele se expressa por meio do seu comportamento; e seu ser oculto, quintessencial. E a Torá, como mencionado acima, tanto tem um significado mais pronunciado quanto um mais implícito como o elo conectando D'us e Israel.
No plano "oculto", a alma do judeu está ligada à própria essência de D'us por meio do relacionamento subjacente e o compromisso que a Torá representa. Mesmo se a vida do judeu, no nível de comportamento consciente, for inconsistente com a vontade revelada do Todo Poderoso, ele é não "menos" um judeu, D'us não o permita; não importa o que aconteça, o vínculo "oculto" intrínseco que define seu Judaísmo não é afetado. Mas para expressar este relacionamento em todos os níveis de seu ser, para alinhar sua vida com sua essência, o judeu deve reiterar a conexão no nível "revelado". Isto ele faz ao estudar a Torá e cumprir suas mitsvot.

A Terceira Junção

Existe, no entanto, mais um significado profundo nas palavras do Zohar. A passagem acima citada fala de "três conexões que são ligadas entre si". A palavra aramaica traduzida aqui como "conexões" é kishrin, que significa literalmente "nós".
À primeira vista, este parece ser um uso inexato. Se a Torá é o elo entre D'us e Israel, então o que temos são três entidades (D'us, Torá e Israel) ligados através de duas conexões (a conexão de Israel com a Torá e a conexão da Torá com o Todo Poderoso). Onde temos três nós/conexões? Isso nos leva a uma segunda definição das dimensões "oculta" e "revelada" do relacionamento entre D'us e Israel. O Midrash declara:
Duas coisas precederam a Criação Divina do mundo: Torá e Israel. Mesmo assim, eu não sei qual precedeu qual. Porém, quando a Torá declara "Fale com os Filhos de Israel…", ou "Ordene aos Filhos de Israel…" e assim por diante, eu sei que Israel precedeu tudo (Tana D'vei Eliyahu Rabba, cap. 14).
Em outras palavras, D'us criou o mundo para que Israel pudesse implementar Seu plano Divino para a existência, como é delineado na Torá. Portanto, o conceito de "Israel" e "Torá", ambos precedem o conceito de um "mundo" na "mente" do Criador. Porém, qual é a "ideia" mais profundamente enraizada dentro da consciência Divina, Torá ou Israel? Israel existe para que a Torá seja implementada, ou a Torá existe para servir ao judeu no cumprimento de sua missão e a expressão do seu relacionamento com D'us? Se a Torá se descreve como uma comunicação com Israel – o Midrash está dizendo – isso presume o conceito de "Israel" como anterior àquele da Torá.
Isso significa que o relacionamento de D'us com Israel "é pré-datado" (no sentido conceitual) ao da Torá, pois a Torá veio para servir àquele relacionamento. Nesse sentido, Israel é o "elo" entre a Torá e D'us: a existência da Torá como a incorporação da Divina sabedoria e vontade é um resultado da existência de Israel e sua conexão com D'us.
Assim, temos três conexões ligando D'us, Israel e a Torá.
No nível revelado, a Torá serve como elo entre D'us e Israel: a Torá está conectada a D'us, e Israel está conectado à Torá. (Isso inclui os dois níveis de conexão delineados acima – a conexão atingida através do cumprimento de uma mitsvá e a conexão definida pelo mandamento em si).
Num nível mais profundo, mais quintessencial, existe uma terceira conexão: a conexão "direta" entre D'us e seu povo, que precede o próprio conceito de uma Torá. Nesse nível, o envolvimento de Israel na Torá é o que conecta a Torá com D'us – o que faz com que Ele estenda Seu ser infinito e inteiramente indefinível até um meio de "Divina sabedoria" e "Divina vontade". Nesse nível, não é o judeu que precisa da Torá para ser um com D'us, mas a Torá que "precisa" do judeu para evocar o desejo Divino de projetar-Se via Torá.
Apesar disso, a Torá é fundamental para o relacionamento do judeu com D'us. A essência do judeu, como está enraizada dentro da essência de D'us, é de fato uma com sua Fonte. Mas então ela "desce" para se tornar parte da existência criada, assumindo uma identidade distinta como uma alma e então como um ser humano. Portanto D'us proveu o judeu com a Sua Torá. Através da Torá, o judeu atinge seu verdadeiro ser quintessencial e torna seu vínculo intrínseco com seu Criador uma realidade na sua vida cotidiana.

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