quinta-feira, 13 de março de 2014

Purim das cortinas.

Você provavelmente pensa que estou brincando, e que o relacionamento entre Purim e cortinas não passa de uma anedota. Bem você está errado. Houve realmente um Purim das Cortinas, originalmente chamado "Purim Vorhang", e como o primeiro Purim de Shushan e os outros Purim celebrados em diferentes países, este celebra a miraculosa salvação de uma comunidade judaica das mãos de seus inimigos.

O Purim das Cortinas costumava ser celebrado no meio do inverno, a 22 de Tevet, dois meses antes do nosso Purim regular. Sua história aconteceu há mais de trezentos anos no outrora famoso Grande Gueto Judeu de Praga, na Boêmia (agora na República Tcheca). Pelo que sabemos, foi assim que tudo começou:

Rudolph de Wenceslav, governador da Boêmia, era um dos que se ressentiam com o surgimento das fortunas judaicas durante o reinado de Ferdinando II. Ele considerava uma afronta pessoal o fato de um homem como o abastado Jacob Schmieles do Gueto de Praga ser feito Cavaleiro e portar o nobre título de Bassevi de Truenberg. Porém havia pouco que ele pudesse fazer contra os judeus de Praga, mais de mil naqueles dias, dos quais muitos mercadores e banqueiros ricos e influentes. A memória e influência do Rabino Chefe Judah Loew, famoso como o "Maharal", ainda eram sentidas entre judeus e não-judeus.

Assim, apesar de todos os esforços, o governador não conseguia provocar rebeliões ou pogroms de grande proporção. Porém um dia, no inverno de 5383 (1623), a Providência parecia realmente estar em suas mãos.

Em meio ao tesouro do palácio havia pesadas cortinas de brocado de ouro, primorosamente tecidas por um famoso mestre tecelão medieval de Bruxelas. Eram consideradas de valor inestimável, e o governador era responsável por guardá-las para a Coroa. Durante toda a primavera, verão e outono, até a metade do inverno, ficavam guardadas para que o sol e a poeira não danificassem sua preciosa textura. Chegou dezembro e o Tesoureiro Hradek, segundo na hierarquia como homem mais poderoso da Boêmia, deu ordens para que todas as cortinas de veludo e brocado, bem como o tapete persa, fossem retirados do depósito e o palácio preparado para a época de festas. Tudo ocorreu na ordem apropriada, pois cada peça dos preciosos ornamentos e mobília tinha sido cuidadosamente catalogada e armazenada. Ao final da lista estavam as famosas cortinas de brocado do salão principal. Como de costume, tinham sido colocadas no grande baú de ferro no porão, junto com os artigos mais valiosos do palácio.

Chegou o dia no qual o próprio Hradek desceu ao porão para certificar-se que os servos tratavam os preciosos materiais com cuidado. A pesada tampa de ferro do baú foi aberta e o brilho amarelo das velas mostraram – seria possível? – nada, exceto a madeira nua que forrava o baú. Todos os presentes engoliram em seco, e um grito de horror subiu das profundezas do porão até as centenas de salas e corredores do palácio, até as ameias da torre de vigia. Logo o próprio governador soube da chocante notícia da falta das cortinas douradas. Ele ordenou uma investigação imediata. Ninguém tinha permissão de sair ou de entrar no palácio. Urrando como um leão enfurecido, Rudolph de Wenceslav interrogou cada um dos empregados, do tesoureiro até a mais humilde faxineira – mas em vão. Todos negaram qualquer conhecimento, ou conexão, com o roubo.

"Se elas não estiverem de volta até hoje à noite" – rosnou o governador aos atemorizados servos reunidos em seu escritório – "farei com que todos vocês sejam jogados na prisão." Ninguém tinha dúvidas de que ele realmente cumpriria a promessa.

Após alguns minutos de silêncio pesado – interrompido apenas pelos passos que o governador dava de um canto ao outro da sala – e as batidas violentas que o seu chicote de montaria dava nas suas botas – o tesoureiro sugeriu que o governador expedisse ordens para que os soldados fizessem uma busca em todas as casas de penhores e depósitos de mercadorias. "Se Vossa Senhoria permite, gostaria de sugerir uma atenção mais detalhada nas lojas e depósitos dos mercadores judeus. Eles têm preferência por mercadoria roubada." – acrescentou Hradek maliciosamente.

Rudolph de Wenceslav aprovou o conselho do tesoureiro, e pouco depois, tropas de soldados faziam uma vistoria em cada depósito e loja de Praga que pudesse esconder as cortinas douradas. Lacraram o Gueto, e sem dizer a ninguém o motivo da busca, reviraram tudo que havia nas casas, numa busca inútil e vingativa destruição.

Um grupo de soldados foi à enorme loja de Enoch Altschul, um dos líderes do Gueto de Praga e erudito, além de próspero mercador. Sem cuidado ou consideração, os soldados procuraram em cada armário, baú e gaveta, atirando o conteúdo pelo chão numa selvagem desordem. Incapaz de encontrar aquilo que procuravam, colocaram um revólver no peito de Enoch Alschul e ameaçaram atirar se ele não revelasse onde escondia sua mercadoria mais valiosa. Para não arriscar a própria vida, Enoch Altschul abriu o cofre secreto no fundo da loja. Em meio a objetos valiosos guardados no armário de madeira por trás de uma parede, os soldados encontraram uma pilha de materiais pesados e cintilantes. Com um grito animalesco de fúria e satisfação, os soldados se atiraram ao velho mercador, espancando-o e colocando correntes em seus braços. A história do roubo e da busca espalhou-se como fogo, levando todos os habitantes de Praga para as ruas. 

Com a ponta dos sabres, levaram Enoch Altschul através das multidões chocadas e silenciosas do Gueto, e depois pelas turbas ululantes fora do Gueto. Um olhar para o baú aberto com as cortinas de brocado contava a história; e antes que sua culpa fosse provada, Enoch Altschul recebeu o tratamento mais vil jamais concedido a qualquer criminoso em público. À medida que a procissão saía do Gueto, os guardas fecharam o baú, pois não havia como saber o que a multidão poderia fazer.

O Governador Rudolph de Wenceslav ainda estava caminhando de um lado para outro no escritório quando os soldados introduziram Enoch Altschul. A vista das cortinas recuperadas amainou sua fúria, porém ficou ainda mais contente ao ver o judeu patriarcal preso com correntes. Percebeu logo que aquela era a chance pela qual tinha esperado desde que fora nomeado governador, de humilhar os mercadores judeus, e fazer alguns saques entre os tesouros do Gueto para o seu próprio bolso. Exteriormente, Rudolph de Wenceslav manteve sua fúria, gritando todos os tipos de insultos para Enoch Altschul.

O velho judeu olhou-o em silêncio. Sua dignidade serviu apenas para aumentar a raiva do governador. Porém nem com insultos nem com perversas chicotadas Rudolph foi capaz de fazer o judeu confessar como tinha se apossado das preciosas cortinas douradas do palácio do governador.

"Dei minha palavra de honra ao membro mais nobre de sua corte. A menos que ele próprio me conceda permissão, não posso explicar a presença das cortinas em minha casa" – responde Enoch em voz firme.

"Seu ladrão! Não tem honra, e sua palavra não tem o menor valor. Está apenas tentando salvar a própria pele. Mas não se preocupe! Veremos se o chicote não o fará falar."

A tortura e ameaças não puderam quebrar a força de vontade de Enoch Altschul. À noite ele foi levado novamente, numa maca, até o governador. "Está pronto agora a dizer-me quem lhe deu as cortinas?" gritou o governador à figura indefesa. Fraco demais para responder, o mercador apenas balançou a cabeça.

"Terá tempo até amanhã de manhã. Se não falar até as nove horas, você e sua família serão pendurados na árvore mais alta que puder ser encontrada em Praga, e meu povo terá permissão de atacar o Gueto."

Pela primeira vez desde que fora aprisionado, Enoch Altschul perdeu a calma. Não se tratava mais apenas de sua vida ou de sua palavra de honra. O significado da ameaça do governador era óbvio, e isso abalou a sua determinação.

Durante toda a noite ele se revirou na cama dura na cela das masmorras do palácio, seu corpo torturado assolado pela dor. Sua responsabilidade era terrível. Em desespero, Enoch implorou a D'us por ajuda e orientação. Seria mais importante manter seu juramento ao homem que lhe tinha levado as malfadadas cortinas, apesar de que agora ele tivesse fingido não conhecê-lo quando o viu ser levado perante o governador? Ou seria o destino da comunidade importante demais para ser arriscado pelo seu código de honra pessoal?

Ao raiar o dia ele caiu num sono inquieto. De repente, a cela pareceu se iluminar. A imagem do seu querido professor e amigo, o sagrado Rabi Judah Loew, apareceu à sua frente assegurando-lhe que no fim tudo daria certo. Embora ele acordasse imediatamente depois da visão, Enoch Altschul sentiu-se fortalecido e encorajado por este sonho. Durante todo o tempo em que os guardas apareceram para levá-lo perante o governador, ele continuou rezando a D'us, pedindo ajuda. Como ele não tardaria em perceber, porém, ele não tinha sido o único incapaz de dormir naquela noite, e a quem seu mestre aparecera naquela noite.

Rudolph de Wenceslav estava impaciente, batendo com seu chicote na tampa da mesa, quando Enoch foi levado à sala principal, perante toda a corte reunida. Apesar das torturas do dia anterior, o judeu parecia calmo. Sem uma palavra, o governador ordenou com um gesto que Enoch fosse carregado até a praça, guarnecida por centenas de soldados fortemente armados. Atrás deles estava uma multidão de pessoas gritando selvagemente, todas parecendo esperar que alguma coisa acontecesse.

"A um sinal feito desta janela eles vão irromper em toda casa do Gueto" – disse Rudolph de Wenceslav. Porém antes que Enoch tivesse uma chance de falar, Hradek, o tesoureiro, atirou entre o governador e o mercador judeu. O rosto branco como a neve, ele gritou nervosamente para o perplexo Rudolph: "Misericórdia, Excelência, piedade, o culpado sou eu! Castigue a mim, não a este nobre homem, que pensa estar protegendo a sua honra pessoal!"

O governador e toda a corte estavam chocados pela confissão do tesoureiro. Incrédulos, escutaram a sua história:

"Há vários meses eu estava numa necessidade urgente de vinte mil ducados que tinha perdido numa noite de jogo pesado. A única maneira que consegui pensar para pagar esta dívida foi tirar as preciosas cortinas de brocado de ouro do baú do palácio e empenhá-las ao venerável Enoch Altschul, que mais de uma vez tinha me ajudado em situações difíceis. Para proteger-me, eu escrevi um bilhete como se eu fosse o governador, assinei e lacrei com o seu selo. No bilhete, era como se o senhor pedisse o dinheiro, e prometesse um bom tratamento para os judeus de Praga se ninguém soubesse dessa transação. Ao mesmo tempo, a nota ameaçava que, caso Enoch traísse o segredo a qualquer pessoa no mundo, o Gueto inteiro seria severamente punido. Não satisfeito com a nota, eu fiz Enoch jurar pessoalmente por seu D'us e sua honra que guardaria o segredo como a própria vida, pelo bem da sua reputação e carreira política.

"Quando o governador nos interrogou, eu o aconselhei a procurar em todas as casas e lojas dos judeus, porque eu sabia que seus soldados encontrariam as cortinas. Eu sabia que o senhor não teria piedade do mercador judeu em cuja posse estavam as cortinas, e que eu poderia contar com Enoch para não quebrar sua palavra de honra, quaisquer que fossem as circunstâncias. Assim, tanto o senhor e eu seríamos ajudados. Quase tive sucesso. Mas durante a noite passada tive uma visão aterradora. Após horas tentando em vão aquietar minha consciência culpada, adormeci. No meu sonho, o famoso líder do Gueto, a quem chamavam Rabino Chefe Loew, morto há vários anos, apareceu para mim. 

“Estava acompanhado daquele assustador monstro de argila, o Golem, temido por todos os cidadãos de Praga. Ninguém que tivesse a ousadia de acusar um judeu inocente de um crime jamais escapou dos dedos esmagadores do Golem. A voz do Rabi disse baixinho: "É melhor você confessar a verdade amanhã!"

"Abalado pelo medo, eu mal pude esperar pelo raiar da manhã, e pela hora em que o judeu fosse trazido perante o senhor, para confessar publicamente a minha culpa."

Enquanto falava, o tesoureiro mexia constantemente com as mãos no colarinho do seu casaco como se este apertasse sua garganta, e quisesse libertar-se do aperto de alguém. Quando terminou de narrar sua vergonhosa história, desmaiou e deslizou para o chão à frente do governador e dos membros reunidos da corte, o terror estampado em seu rosto pálido.

Enoch Altschul foi libertado de imediato e os soldados dispersaram a turba em vez de liderá-la num ataque ao Gueto, como tinha sido seu propósito original.

Em comemoração a essa miraculosa reviravolta nos acontecimentos, Enoch Altschul pediu ao seu povo para celebrar o "Purim das Cortinas" todo dia 22 de Tevet, a data em que ocorreu este incidente. Durante mais de duzentos anos, a família Altschul, e com ela toda a comunidade judaica de Praga, observaram fielmente esta celebração, comemorando sua salvação da acusação de roubar as famosas cortinas de brocado de ouro do palácio do governador da Boêmia.

Por: Gershon Kranzler. 






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