sexta-feira, 13 de junho de 2014

Quem é judeu?"

A pergunta quem é judeu?" gera um grande debate político, social e religioso entre os diversos grupos judaicos, devido ao fato de cada um ter uma interpretação as vezes bastante peculiar sobre quem pode e/ou deve receber esta nomenclatura.Interpretações essas que dependem de qual a sua tradição religiosa (ortodoxa, conservadora, reformista, caraíta) e do espaço geográfico onde se encontram (sefaraditas, asquenazitas), persas, norte - africanos, indianos etc.). O povo judeu surgiu justamente antes do conceito de religião, pois como sendo um dos poucos povos da antiguidade que ainda existem, trazem consigo este aspecto muito peculiar que na verdade é um ponto de sua diversidade sócio-cultural, e como tal seria uma tremenda imprudência reduzir o povo judeu ou o "judaísmo" a um mero conceito de "religião" apenas. Na história recente ocidental, e conseqüentemente na história judaica, uma revolução conceitual levou o judaísmo e o povo judeu a um tempo de grandes mudanças estruturais. A essa revolução, a história deu o nome de iluminismo (Hebraico: השכלה; Haskalá). Nesse período histórico, os antigos grupos religiosos detentores de tradições milenares observaram o nascimento de uma geração que via na criação de grupos com novas formas de pensar a possibilidade de saída de seus guetos milenares, não somente no plano físico, mas também mental e filosófico. Por vezes esses novos grupos distanciaram-se da velha ligação do judeu com a religião judaica-mãe, porém sem nunca perder a sua chama interna de identidade, sentimento esse que é o ponto de aproximação de todos os judeus e a mais importante linha para complexa continuação da nação que é, hoje, esse povo." Assim, com a inserção de novas filosofias no seio do judaísmo, dispares concepções surgiram sobre as questões básicas da tradição judaica. E obviamente cada grupo desenvolveu suas discussões de como pode-se definir uma resposta sensata à pergunta constante : "Quem é judeu?". Essa definição de resposta se deu, em sua maioria, sob duas linhas gerais: Pessoa que tenha passado por um processo de conversão ao judaísmo ou pessoa que seja descendente de um membro da comunidade judaica." "Contudo, esses dois assuntos são repletos de divergências. Quanto às conversões, existem divergências principalmente sobre a formação dos tribunais judaicos responsáveis pelos atos. Isso faz com que pessoas conversas através de um tribunal judaico reformista ou conservador não sejam aceitas nos círculos ortodoxos e seus rabinos que exigem um tribunal formado somente por rabinos ortodoxos pois entendem serem outros rabinos incapazes de fazer o converso entender a grandeza da lei que está tomando sobre si. Por outro lado, o judaísmo reformista e conservador, acusa os ortodoxos de fazerem exigências absurdas, não mais se preocupando com a essência do ser judeu e sim, com regras e rigidez desnecessária." Mesmo dentro de Israel a questão da judaicidade de uma pessoa ainda é muito discutida pois existem divisões até entre os diferentes movimentos ortodoxos que não reconhecem uns aos outros como legítimos. Há movimentos judaicos ortodoxos que sequer reconhecem a legitimidade do Estado de Israel como é o caso do Neturei Karta (“guardiões da cidade”) e outros. "Já quanto a descendência judaica, a divergência aparece na definição de quem viria a linha judaica, se matrilinear. O amarrano Ou Anussim O Elemento étnico-sócio-cultural denominado "marrano", anussim ou bnei anussim, é fruto de uma longa luta dentro da própria história, vindo a ser hoje um indivíduo de certa forma "marginalizado" dentro de seu próprio mundo, como que se vivendo em um limbo ideológico, pois não se vê como cristão e não é "aceito" como judeu, mas de onde provem este termo que o designa? O movimento Anussim, Bnei Anussim, Marranos ou Retornados, surge de algumas décadas pra cá como um movimento organizado ou que vem se organizando em alguns pontos do país e do mundo, como forma de resgate étnico e cultural dos então descendentes de judeus que foram perseguidos pelas inquisições portuguesa e espanhola há aproximadamente quatro séculos atrás e que hoje tentam reclamar seu direito a uma identidade cultural, a fazer parte de um povo, mas que de certa forma se sentem descriminados de um lado pelo ocidente (cristãos) que não os vê como iguais e de outro pela própria comunidade judaica que os vê com um ar de desconfiança e requer uma enorme burocracia para aceita-los de volta ao seio do povo judeu. Quem é e de onde veio o “marrano” ? O termo Marrano que em espanhol significa porco ou leitão de acordo com as pesquisa de David Maeso (1977) “tem um forte significado pejorativo que veio a ser designativo dos judeus que se converteram ao cristianismo, se não de forma sincera, mas ao menos para escapar dos perigos que representava o tribunal da santa inquisição”. Já segundo Lipiner (1977), a terminologia é muito mais antiga do que o significado anterior. Apresenta as definições de Marrano como sendo de origem hebraica ou aramaica: Mumar, que significa converso, oriundo da raiz hebraica mumar acrescido de sufixo em idioma castelhano ano vindo a derivar mumrrano, que abreviando torna-se marrano, designando justamente o convertido a fé cristã católica romana. Poderia ser ainda uma acomodação para as línguas ibéricas do vocábulo hebraico(Marit-ayn)que significa aparência, pois muitos destes convertidos o eram somente em aparência, pois dentro de seus lares continuariam a professar e praticar a fé judaica. Ocorre ainda a referencia a outras formas ou origens, como os termos Mar-anús: designando o homem batizado à força, de forma amargurante e humilhante, onde o vocábulo Marem hebraico significa amargo e Anus, em hebraico, significa forçado, violentado. Mais recentemente, com o constante crescimento de movimentos de legalização da causa marrana, paulatinamente vem-se substituindo este termo, que para muito ainda soa pejorativamente por um outro, também de origem hebraica que seria bem Anus ou Bnei Anussim, onde ben significa filho em hebraico e bnei como forma plural de ben, da mesma forma o termo anus ganha sua forma plural em anussim. Entende-se de fato que ambos todos os termos citados, seja Marrano, Bnei Anussim, ou simplesmente Anussim, vem a designar o judeu de origem ibérica que no período compreendido entre os séculos XIII e XV teve de optar pela conversão forçada ao catolicismo romano ou a morte, e que sofreu ainda até o século XIX, mas precisamente no ano de 1821 uma dura e forte perseguição, justamente por ainda praticarem o judaísmo familiar. Assim com o passar do tempo, veio a ganhar significados pejorativos, sempre ou quase sempre relacionados com uma das mais importantes práticas ou regras alimentares da fé judaica que é justamente a não ingestão de carne de porco. Portanto, os termos, Marrano, Anus, Ben Anus, juntamente com seus plurais e femininos respectivos se referem aos Judeus da península ibérica (Portugal e Espanha) que foram obrigados a professarem a fé católica romana, e também aos descendentes que nos dias de hoje buscam retornar a fazer parte de forma oficial ou não de todo o legado histórico-sócio-cultural de seus antepassados, e que foram ao longo do tempo deixando sua marca na construção da nação que hoje povoa o território das Américas, mas precisamente o Brasil (que é o enfoque referencial deste trabalho). RODRIGUES, Albo Berro. Movimento Anussim: O difícil retorno ao lar. 2010. 34 páginas. Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em História, Universidade Norte do Paraná, Ijuí, 2010. O Povo Hebreu, que posteriormente tornou-se Povo Judeu (após a divisão do Reino de Israel em dois: Sul e Norte, fortalecido após o retorno do cativeiro babilônico), conta em sua história muitas lutas e constantes perseguições, opressões, motivadas por um forte preconceito sociocultural. Um dos pontos culminantes ocorreu no ano de 135 da era comum, 65 anos depois da destruição do Beit Hamikdash, onde o povo judeu foi expulso de Jerusalém e disperso pelo mundo. Graças a esta atitude, muitas comunidades judaicas floresceram pela extensão do Império Romano, principalmente as comunidades de Sefarad (que já existiam antes mesmo do Império), como era conhecida a Península Ibérica pelos judeus. Foi nesta Sefarad que a então Igreja Católica Apostólica Romana junto com os reis Fernando e Isabel promulgaram o Édito de Alambra, em 1492, que obrigava a próspera comunidade ao exilio ou a conversão forçada. Muitos não puderam abandonar suas casas e foram obrigados a conversão. Nascia neste momento outro elemento no povo judeu, o Anús ou Marrano, sujeito étnico-cultural que de forma externa vivia a aparência cristã, mas que mantinha em seu intimo e no interior de seu lar a fé e cultura de seus pais. A fim de preservar o bem mais valioso para um judeu, sua vida, manteve sua fé de forma intima e oculta, mas transmitindo-a a seus descendentes, preservando assim sua forma judaica de ser. Sendo os primeiros “colonizadores” do Brasil formados em sua maioria por este elemento, o Marrano, é um fato sua influência e permanência existencial nos vários tipos regionais, como o sertanejo, o vaqueiro do cangaço, o gaúcho, etc. Fatos amparados pelos estudos sobre o berrante dos vaqueiros, de inspiração nos shofarim; a barba, o chapéu de forma constante, a faca própria para o abate e o próprio abate, o pala de seda dos gaúchos como praticas judaicas; os símbolos, como a estrela de David nas roupas dos cangaceiros. Desta forma e baseado em vários estudos de renomados pesquisadores, comprova-se a existência deste elemento judaico, o Marrano, e na atualidade, motivado por muitos fatores sócio-filosóficos-culturais, anseia pelo seu reconhecimento perante a comunidade judaica mundial, mas não aceitando jamais a conversão como único meio para tal feito, pois a aceitação da mesma seria uma negação a toda sua origem e ancestralidade. Sendo assim, confessamos aqui nossa forma de pensar, que nada mais é do que o resgate do pensamento marrano que ficou guardado no seio de muitas famílias marranas e facilmente comprovado pela historiografia. Tendo sido exposto nossa origem, e tendo firmemente a ideia e convicção de nossa origem judaica sefaradita, e se não somos ainda aceitos pela comunidade judaica mundial de acordo com que dizem varias responsas rabínicas do período pré e pós-inquisição, fica claro que a única solução é a criação de uma vertente que possa nos congregar e manter viva a ideologia sefaradita existente até 1492, como linha nomeada de “Judaísmo Anussita Sefaradita”, e tendo como pontos básicos elementares os citados a seguir: De acordo com Rabi Shlomo Ben Shimon – Rabash – Todos os anussim e seus descendentes devem ser considerados israelitas, até o final dos tempos. Todos os anussim e seus descendentes quando desejarem retornar ao judaísmo não devem ser considerados Guerim (prosélitos), mas baalei teshuvah (donos da resposta); ·Sendo judeus, afirmamos os três princípios básicos centrais do judaísmo: D'us, Torah e Israel; reconhecendo a diversidade de praticas, ritos e crenças judaicas; · Acreditamos que cada ser humano foi criado a imagem do Criador, e desta forma tem a obrigação de contribuir para a melhora do mundo e da sociedade (Tikum Olam), esforçando-se para trazer a paz, a liberdade e a justiça ao mundo; ·Os Judeus Anussitas Sefaraditas aceitam a Torah como sagrada, sendo transmitida a Moshe, e fundamento da vida judaica, contendo a revelação do Eterno ao seu povo, bem como a descrição de sua interação com Ele, contendo toda a base de sustentação espiritual e moral para toda a humanidade; ·Aceitamos que junto com a outorga da Torah escrita a Moshe, o Criador também transmitiu a Torah Oral, passada de geração em geração e preservada pelos sábios de nosso povo; ·Acreditamos na Alma da Torah, como meio de reconstrução interior, moral e espiritual para toda a alma vivente, para que o homem compreenda seu Tikum e possa realiza-lo e prol de si mesmo e de seu semelhante; Somos comprometidos com o principio da inclusão e não da exclusão, reconhecendo a linhagem de nossos irmãos a partir de sua origem materna ou paterna, valorizando sua alma e principalmente sua intenção; Somos comprometidos com a igualdade, e jamais com o preconceito descabido, que muito mal causou-nos no passado remoto e recente; Cremos nos 13 princípios propostos por Rabi Moshe Ben Maimon, Maimônides ou Rambam, como descrito a seguir: 
1 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, é o Criador e Guia de todas as criaturas, e apenas Ele, criou, cria e criará todas as coisas. Só existe um Único D'us, YHVH, e jamais outro. 
2 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, é Único e que não há nenhuma unicidade como Ele; que somente Ele é nosso D'us, era, é e será. 
3 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, não é corpóreo, não tem nenhuma propriedade antropomórfica, e não há absolutamente nada parecido com Ele. 
4 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, é primeiro e último. 
5 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, é o único a Quem é apropriado rezarmos, e que não é apropriado rezar a mais ninguém. 
6 — Eu acredito com plena fé que todas as palavras dos profetas são verdadeiras. 
7 — Eu acredito com plena fé que a profecia de Moshe (Moisés), nosso mestre, que esteja em paz, foi verdadeira, que ele foi o pai de todos os profetas, daqueles que o precederam como daqueles que o seguiram. 
8 — Eu acredito com plena fé que toda a Toráh que está em nossas mãos foi dada a Moisés, nosso mestre, que esteja em paz. 
9 — Eu acredito com plena fé que esta Toráh não será modificada nem haverá outra Toráh dada pelo Criador, abençoado seja o Seu nome. 
10 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, conhece todas as ações e todos os pensamentos dos seres humanos, como está escrito: “É Ele quem forma os corações de todos, Quem percebe todas as suas ações” (Salmos 33:15). 
11 — Eu acredito com plena fé que o Criador, abençoado seja o Seu nome, recompensa àqueles que guardam Seus mandamentos, e pune aqueles que os transgridem. 
12 — Eu acredito com plena fé na vinda de Mashiach (Messias), e ainda que possa tardar, mesmo assim espero a cada dia pela sua vinda. 
13 — Eu acredito com plena fé que haverá a ressurreição dos mortos no momento que assim o desejar nosso Criador, abençoado seja o Seu nome, exaltada seja a Sua lembrança para todo o sempre. ·Afirmamos nosso pensamento em abominar todo o tipo de idolatria, seja por objetos ou seres; ·Afirmamos nosso pensamento e ideologia em não aceitar e rejeitar qualquer analogia ou ligação com qualquer vertente cristã existente, principalmente com os que se dizem “judeus” messiânicos, ebionitas, judeus-cristãos, nazarenos, ou qualquer outra denominação cristã existente e que se travista de judeus a fim de enganar nossos irmãos, levando-os a corrupção e a praticas idolatras; Afirmamos nossa crença na redenção e reunião dos dispersos, e por isso estamos fazendo nossa parte; E bendito seja YHVH, nosso D`us Único. Ensina-me bom juízo e conhecimento, pois creio em teus mandamentos. (Salmo 119,66) Desta forma declaramos nossa fé em D'us, na Torah e no amor por Israel.

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