segunda-feira, 4 de maio de 2015

Podemos mudar nossa personalidade?

"E vocês contarão para si mesmos… a partir do dia em que levaram a oferenda do Omer, sete semanas completas serão; até a manhã da sétima semana vocês contarão cinquenta dias, e proclamarão aquele mesmo dia uma festa sagrada – a porção dessa semana da Torá (Vayicrá 23:15)."

Estamos agora no período de quarenta e nove dias entre Pêssach e Shavuot, que é marcado por uma intensa jornada rumo ao refinamento emocional. Cada um dos 49 dias corresponde a um aspecto de nossos atributos emocionais multiplicados por sete (49), como explicado em detalhes com exercícios diários em meu livro, O Guia Espiritual para a Contagem do Omer. O Dia Um se concentra em refinar o “amor dentro do amor”, Dia Dois – disciplina com amor, e assim por diante.

Sempre que abordamos o tema de auto-refinamento e crescimento pessoal, devemos fazer a grande pergunta: Podemos de fato mudar nossas personalidades?

Os animais, por exemplo, não trabalham em si mesmos e seus relacionamentos. Eles são aquilo que são, controlados pelos instintos inerentes e ponto final. Animais não vão a terapias, não tomam Prozac e simplesmente levam a vida de acordo com seus mecanismos embutidos.

Certo, podemos treinar um animal para saltar através de arcos e realizar outros truques, mas não podemos alterar fundamentalmente seus padrões naturais, como o Dr. Moreau tragicamente descobriu.

A famosa parábola do proverbial gato leva aonde pretendo chegar. Dois filósofos estavam discutindo se animais podem ser treinados e mudados para se comportar como seres humanos. O primeiro pensador apontou para um gato que estava sendo treinado para ser garçon num restaurante de luxo. Vestido com fraque, o felino servia os clientes caminhando sobre duas patas, com o focinho e os bigodes elegantemente apontando para cima. O segundo filósofo tirou uma bolsa e abriu-a, libertando vários ratos que correram em diferentes direções. O gato de smoking de repente parou o que estava fazendo, ficou de quatro para perseguir os ratos, deixando o vinho e o jantar espalhados sobre o piso de madeira polida, e o filósofo coçando a própria cabeça…

Então que esperança temos de tentar mudar nossas tendências naturais – uma causa aparentemente perdida? Quantas pessoas você realmente conheceu que mudaram de personalidade?

Pode-se usar o argumento de que não podemos realmente mudar nosso ser essencial, mas podemos mudar nosso comportamento. Aquilo que se espera das pessoas civilizadas não é que transformem o próprio interior, mas que vivam de acordo com uma lei comum que dita o respeito mútuo: as :luzes verdes” e “luzes vermelhas” impostas que nos permitem coexistir. Felizmente, a fachada de disciplina comportamental manterá a fera interior sob controle, com apenas umas poucas anomalias no formato de monstros criminosos colocados atrás das grades. O medo do castigo, neste sistema, é o fator determinante para deter seres humanos de voltarem ao seu estado de egoísmo natural. Porém deixadas à vontade, as pessoas naturalmente voltarão às suas raízes primitivas: feras lutando para sobreviver a todo custo. Não é um quadro muito bonito, mas temos uma alternativa?

Agora vamos às boas notícias.

Toda presunção é baseada em nossa premissa inicial. Toda teoria é definida por seus axiomas. A razão pela qual presumimos que não podemos mudar nossa personalidade é porque nossa impressão inicial é que tudo neste universo não muda realmente em qualquer maneira fundamental. Os minerais continuam minerais, os vegetais serão sempre vegetais e os leopardos não “perdem suas pintas”.

A existência, como a vivenciamos num nível sensorial, é um lugar estático. Sim, as coisas se movem, mas elas não mudam fundamentalmente suas personalidades naturais e não transcendem seus limites inerentes. O sol nasce a cada manhã e se põe à noite, Então surge a lua e depois se põe. A lua passa pelo seu ciclo lunar consistentemente a cada mês. Toda parte da “natureza” é como um relógio previsível seguindo um programa imutável e pré-estabelecido. Então assim como uma pedra, um árvore e um animal permanecem todos da maneira que sempre foram, por que deveríamos presumir que um ser humano é diferente?

Baseada nessa premissa, que a existência é estática, a impossibilidade de mudar a personalidade de alguém parece tão inevitável como o fato de que um cordeiro jamais se comportará como um lobo.

Na verdade, a existência como a conhecemos é pior que estática; está morrendo. Tudo que experimentamos, até a matéria física, está no processo de erosão. A vida, em particular, é mortal. Todos e tudo envelhece e morre.

No entanto tudo isso está baseado na premissa da existência “como a conhecemos”. Há uma outra premissa – que incomoda toda a teoria de uma existência imutável. Essa premissa é colocada pela Torá. Como um verdadeiro projeto a Torá não descreve sintomas, mas causas. Não define a existência pela maneira que nós humanos a vemos a olho nu, mas pelo seu real caráter interior. Quando olhamos para uma estrutura vemos sua camada externa; é o corpo. Quando olhamos para o seu projeto, vemos sua engenharia interior: é a alma.

A Torá, que define as coisas como realmente são, começa descrevendo o homem – não como um esqueleto com 1,70m de altura, não como uma criatura com inteligência e sentimentos, não como um ser que nasce e morre. O que então é o homem? A primeira coisa que aprendemos é que o ser humano não é humano mas “divino”, criado à Divina imagem.” No âmago de cada um de nós há um “ser Divino”.

Essa declaração muda todo o quadro. Se fôssemos meras pesonalidades humanas então nossa pesonalidade não poderia mudar, assim como a terra não pode se tornar água nem se transformar em céu.

Sem entrar nos intrincados significados da “Imagem Divina”, a diferença básica entre humano e Divino é a diferença entre morte e vida. O Divino é dinâmico. O humano é estático. O Divino está vivo. O humano está morto.

Veja, o fato de que o universo físico age e erode nos diz que desde o início está em processo fundamental de morte. Na Lei da Torá há uma questão sobre o que pode ser categorizado “mayim chayim”, águas vivas. Se uma fonte viva fosse secar em sete anos, a lei dira que mesmo enquanto a fonte está “viva” durante os sete anos não pode ser chamada de “viva”, porque sua morte é inevitável. Se algo terminará por morrer. está realmente vivo, para começo de conversa?

A eternidade, em outras palavras, não é descoberta ao fim “da estrada”, mas no início. A eternidade é qualitativamente, não quantitativamente, diferente do efêmero, assim como a infinidade é qualitativamente tão equidistante do número um como é de um trilhão. Podemos não saber muito sobre o Divino, mas uma coisa não é humana (ou seja, como definimos o termo). O divino é uma fonte de energia constante fluindo da Essência de tudo. É dinâmico e vivo, e sempre aberto a mudanças.

A declarar que o ser humano é feito à imagem Divina, somos obrigados a repensar a própria natureza de nosso ser. Em vez de tentar encaixar nossos “conceitos” espirituais em termos humanos, devemos encaixar nossos parâmatros humanos em um contexto “Divino”. Como alguns pensadores notaram: “Não somos seres humanos numa jornada espiritual; somos seres espirituais numa jornada humana”.

De fato, o Divino nos conclama a repensar a própria natureza da existência em si. Não apenas a humana, mas o universo todo, por baixo da superficie, está pulsando com energia Divina vibrante e dinâmica. Ao nos vermos como Divinos podemos começar a olhar para o universo de uma maneira nova e então reconhecer nossa capacidade de mudar a existência como um todo.

Sempre fiquei intrigado pela declaração de alguns ateístas franceses de que se “D'us não existisse teríamos de criá-Lo.” Além do tom sacrílego dessa declaração, ele encerra uma profunda verdade: se nos permitirmos ver a vida como nada mais que mortal, então estamos fadados à morte de todas as coisas mortais. Com efeito, transformar todas as nossas opções de vida, todos os nossos sacrifícios, todos os nossos comprometimentos, em causas que vão morrer – morrer juntamente conosco.

Nossa única fonte de esperança – que infunde todos os nossos comprometimentos com eterno significado – é nossa conexão com o Divino.

Como disse certa vez um sobrevivente do Holocausto: “Depois do Holocausto não temos outra opção exceto acreditar em D'us, porque não podemos mais acreditar no homem…”

As implicações de mudança de personalidade devido à nossa natureza Divina (em vez de humana) são abrangentes e revolucionárias. Criam um padrão infinitamente mais elevado daquilo que podemos esperar de nós mesmos e dos outros. Isso nos motiva a chegar a lugares que jamais consideramos imagináveis. Acima de tudo, nos dá o poder de mudar nossa própria natureza – mesmo que esteja profundamente entranhada em nossos genes e personalidades, devido à hereditariedade ou ao treinamento.
E então, você pode mudar sua personalidade?
Não se for uma personalidade humana.
Sim, se for Divina.

POR SIMON JACOBSON

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