sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

PARASHÁ YITRÔ

A porção de Yitrô inicia-se com o sogro de Moshê, Yitrô, chegando ao acampamento do povo judeu no deserto, onde é saudado calorosamente por grande quantidade de pessoas. Yitrô desejou juntar-se a eles quando ouviu falar de todas as maravilhas e milagres que D'us realizara para o povo judeu durante o êxodo do Egito.
Quando vê que Moshê está agindo como único juiz do povo desde o amanhecer até a noite, Yitrô declara que este sistema jamais funcionará. Sugere, portanto, que juízes subordinados sejam designados para julgar os casos menos importantes. Moshê concorda com este plano.
O povo judeu chega ao Monte Sinai e prepara-se para receber a Torá. Moshê escala a montanha e D'us lhe diz para transmitir ao povo de que serão para Ele como um tesouro entre as nações. Após três dias de preparação, finalmente chega o momento da revelação, e em meio a trovões, raios e o som do shofar, D'us desce sobre a montanha e proclama os Dez Mandamentos.
Moshê então sobe à montanha para receber o restante da Torá de D'us, tanto a parte escrita como a oral. A porção é concluída com várias mitsvot referentes à construção do Altar no Templo.
Poucas leituras semanais da Torá recebem o nome de uma pessoa; portanto, sempre que esta associação é feita, ela demanda especial atenção. E se isto for verdade em relação às outras leituras da Torá, certamente se aplica à Parashá Yitró, a história da entrega da Torá. Chamar a porção de Yitró indica uma conexão entre ele e os acontecimentos.
Quem foi Yitró? A Torá o descreve como o kohen de Midian. Nossos Sábios oferecem duas definições para a palavra kohen:
a) “Governante”. Yitró governava a terra de Midian.
b) ”Sacerdote”. Ele liderava os midianitas em sua devoção. De fato, nossos Sábios relatam que Yitró tinha reconhecido todas as falsas divindades no mundo.
A conexão entre a primeira interpretação e a entrega da Torá é óbvia, pois ela reflete a extensão do compromisso de Yitró. Apesar de ele ter vivido com riqueza e conforto, ele estava preparado para viajar para o deserto para ouvir as palavras da Torá4. Mas a segunda interpretação é problemática. Nossos Sábios nos ensinam5 que é proibido dizer a um convertido: “Lembre de teus atos anteriores”.
Identificando as Divindades, Reconhecendo D’us
Para resolver esta questão, é necessário entender a origem da idolatria. O Rambam escreve6:
Durante a época de Enosh, a humanidade cometeu um grande erro... Eles disseram que D’us criou as estrelas e esferas para, com elas, controlar o mundo. Ele as colocou no alto e as tratou com honra... Consequentemente, é adequado [ao homem] louvar e glorificar [estas entidades] e tratá-las com honra.
Assim, a adoração de falsas divindades tem suas raízes em um mal-entendido – a de que D'us influencia este mundo por meio de intermediários.
Nossos Sábios comentam: “Não há nenhuma folha de grama neste plano [material] que não tenha uma força espiritual compelindo-a a crescer”. Adoradores de ídolos, entretanto, atribuem autoridade independente a esses intermediários, achando que eles têm controle sobre a influência que espalham. Na verdade, esses “deuses” são meramente “um machado na mão de um lenhador”, sem nenhuma importância ou vontade própria e, portanto, é errado e proibido adorá-los.
Ao dizer que Yitró tinha reconhecido todas as falsas divindades no mundo, nossos Sábios indicam que ele tinha consciência de todos os diferentes meios pelos quais D’us canaliza a energia para o mundo. Apesar de seu conhecimento desses poderes espirituais, ele rejeitou sua idolatria declarando: “Abençoado seja D'us... Agora eu sei que D’us é maior que todas as divindades”.
O Microcosmo Encorajando o Macrocosmo
O reconhecimento de D’us por Yitró não foi meramente uma questão pessoal. Suas palavras de louvor produziram “a revelação de D'us em Sua Glória nos mundos superiores e inferiores. Depois disso, Ele entregou a Torá, em perfeita [confirmação de] Seu domínio sobre toda a existência”.
O reconhecimento individual de D’us por Yitró expressou o propósito da entrega da Torá. Isto preparou o macrocosmo, o mundo em geral, para uma revelação como esta.
Explicando: O Rambam declara que “a Torá foi dada somente para criar paz dentro do mundo”. Entretanto, a paz não é o objetivo da existência da Torá; a Torá existia antes da criação do mundo. Ela é a sabedoria de D’us, unida com Ele.
Portanto, assim como D’us transcende o conceito de propósito, também assim faz a Torá. O Rambam, entretanto, focaliza não sobre o objetivo da própria Torá, mas sobre a entrega da Torá – porque a Torá foi concedida aos mortais. Ele explica que a Torá foi dada não somente para espalhar a Luz Divina, mas para cultivar a paz.
Quando os Pares se Encontram
A paz se refere à harmonia entre opostos. Em um certo sentido, ela se refere à solução da divisão entre o físico e o espiritual, o movimento adiante que torna possível um mundo no qual a presença de D’us não está visivelmente evidente para reconhecer e ser permeado pela verdade de Sua Existência.
Sobre o versículo “Os céus são os céus de D'us, mas a terra Ele deu aos filhos do homem”, nossos Sábios explicam que, originalmente, havia um decreto Divino separando o físico do espiritual, isto é, a natureza da existência material nos afastava da verdadeira apreciação da realidade espiritual. No momento da entrega da Torá, entretanto, D’us “anulou esse decreto” e permitiu que a união fosse estabelecida entre as duas.
Além disso, a verdadeira paz envolve mais do que a mera negação da oposição. A intenção é que as forças que existiam previamente ao acaso devem reconhecer algo em comum e se unirem em atividades positivas. Da mesma forma, a paz que a Torá estimula não envolve meramente uma revelação da Divindade tão grande que o mundo material seja forçado a reconhecê-la. Em vez disso, a intenção da Torá é produzir uma consciência de D’us dentro do contexto do próprio mundo.
Existe Divindade em todo elemento da existência. A todo o momento, a Criação está sendo renovada; se a energia criativa de D'us faltasse, o mundo voltaria ao nada absoluto. A Torá nos permite apreciar essa Divindade interior e nos capacita a viver em harmonia com ela.
Em um sentido pessoal, o reconhecimento por Yitró da supremacia de D’us cumpriu esse objetivo. De seu envolvimento com “todas as falsas divindades do mundo”, ele chegou a um profundo reconhecimento da soberania de D'us. A transformação de Yitró tornou possível a entrega da Torá que, por sua vez, transforma o mundo.
Da Escuridão à Luz
O Zohar associa a transformação da existência material com o versículo “Eu vi uma vantagem da luz sobre a escuridão”. A palavra Yisaron (compartilhando a mesma raiz que o nome Yitró), traduzida como “vantagem”, também pode ser entendida como “qualidade superior”. Assim, o versículo pode ser interpretado como indicando que a luz que vem da transformação da escuridão possui uma qualidade superior.
Há duas implicações disto. Primeiramente, que a transformação da escuridão resulta em uma maior qualidade da luz do que a que seria revelada e, em segundo, que essa luz superior não se opõe ao mundo material. Ao contrário, a escuridão do mundo é sua fonte.
O Caminho para a Redenção
O Tanya descreve a entrega da Torá como um prelúdio da Era da Redenção. Quando a Torá foi dada, toda a existência ficou em um estado de absoluta unidade com D’us.
No momento da entrega da Torá, entretanto, a revelação dependeu da iniciativa de D’us. Já que o mundo ainda não tinha sido refinado, sua natureza se opôs à manifestação da Divindade e, assim, a revelação milagrosa não permaneceu. Nos séculos que se seguiram, entretanto, a observância da Torá e às suas mitzvot pela humanidade tem lentamente costurado a Divindade no tecido do mundo. Na Era da Redenção, a separação será permanentemente dissolvida e nós perceberemos que nosso mundo é a moradia de D’us.
Bendito seja o Eterno, o D’us de Israel.
Judaísmo faz bem!

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