domingo, 17 de abril de 2016

Heroísmo em Pêssach

Por : Rabino Jonathan Sacks
A história de Pêssach é uma das mais conhecidas. Tem sido contada por mais de três mil anos. O que mais me fascina, entretanto, é um aspecto poucas vezes mencionado. Pergunte a qualquer pessoa, judeu ou não-judeu, quem é o herói humano do Êxodo, e a resposta certamente será: Moshê, o libertador, profeta e lutador pela justiça.
Porém a Torá conta uma história mais complexa e inesperada. Juntamente com Moshê - tornando sua missão, até mesmo sua vida, possíveis - estão outras seis figuras, todas mulheres. Estranho como possa parecer, os heróis do êxodo são heroínas.
Quem foram elas? A primeira foi Yocheved, esposa de Amram, e mãe das três pessoas que tornar-se-iam os grandes líderes dos israelitas, Miriam, Aharon e o próprio Moshê. Foi Yocheved que, no auge da perseguição egípcia, teve a coragem de ter um filho, escondê-lo por três meses, e então arquitetar um plano para dar-lhe uma chance de ser resgatado. Sabemos muito pouco sobre Yocheved. Em sua primeira aparição na Torá, não é nomeada. Mesmo assim, lendo a narrativa, não temos dúvidas sobre sua bravura e presença de espírito. Não foi por acaso que seus filhos tornaram-se todos líderes.
A segunda foi Miriam, filha de Yocheved e irmã de Moshê. Foi ela quem vigiou o bebê enquanto o cestinho flutuava rio abaixo, e quem se aproximou da filha do faraó com a sugestão de que ele fosse amamentado em meio a seu próprio povo. Uma vez mais o texto bíblico pinta um retrato da jovem Miriam como uma figura de invulgar coragem e presença de espírito. A tradição rabínica vai mais além. Em um notável midrash, lemos como a jovem Miriam enfrentou o pai, Amram, e persuadiu-o a mudar de ideia. Informado sobre o decreto dizendo que cada bebê judeu do sexo masculino seria afogado no rio, Amram conclamou os israelitas a divorciarem-se, para que não mais houvesse crianças. Havia uma certa lógica nisso. Seria certo trazer crianças ao mundo, se havia 50% de chance de que fossem assassinadas logo ao nascer?
Mesmo assim Miriam, diz a tradição, queixou-se a ele: "Seu decreto," disse ela, "é pior que o do faraó. O dele afeta apenas os meninos; o seu afeta a todos os bebês. O decreto dele priva as crianças da vida neste mundo; o seu os privará da vida até no mundo vindouro." Amram cedeu, e como resultado, nasceu Moshê. A implicação da história é clara - Miriam tinha mais fé que seu pai.
A terceira, e de certo modo a mais intrigante, é a filha do faraó, que a tradição chama de Batya. Foi ela quem teve a coragem de resgatar uma criança israelita e criá-la como sua, no próprio palácio onde seu pai tramava a destruição do povo judeu. Podemos imaginar uma filha de Hitler, Eichmann ou Stalin fazendo o mesmo? Existe algo ao mesmo tempo heróico e gracioso sobre essa figura apenas esboçada, a mulher que deu nome a Moshê.
A quarta faz sua aparição mais tarde na narrativa. Tsipóra, a mulher de Moshê. Filha de um sacerdote medianita, mesmo assim está determinada a acompanhar Moshê em sua missão no Egito, apesar de não ter razão alguma para colocar em risco sua vida em uma aventura tão delicada. Em uma passagem profundamente enigmática, é ela quem salva a vida de Moshê ao realizar a circuncisão em seu filho. Temos sobre ela a impressão de ser uma figura de tremenda determinação que, no momento crucial, entendeu melhor que o próprio Moshê a vontade de D'us.
Deixei para o final as figuras que aparecem primeiro, porque são elas que mais fizeram para alargar os horizontes morais da humanidade. Refiro-me às duas parteiras, Shifrá e Puá, que frustraram a primeira tentativa do faraó de cometer genocídio. Instruídas a matar as crianças israelitas na hora do nascimento, elas "temeram a D'us e não fizeram aquilo que o rei do Egito lhes ordenara fazer; deixaram os meninos viver."
Intimadas e acusadas de desobediência, enganaram o faraó inventando uma engenhosa história: as mulheres judias, disseram elas, são fortes, e deram à luz antes que chegássemos. Escaparam do castigo e salvaram vidas.
A importância desta história é que trata-se do primeiro exemplo que conheço de uma das maiores contribuições do Judaísmo à civilização; a ideia de que há limites morais para o poder. Existem instruções que não devem ser obedecidas. São crimes contra a humanidade, que não podem ser desculpados sob a alegação de que "eu estava apenas cumprindo ordens."
Este conceito, geralmente conhecido como 'desobediência civil,' é comumente atribuído ao escritor americano do século XIX Henry David Thoreau, e penetrou na consciência internacional após o Holocausto e os Julgamentos de Nuremberg. Sua verdadeira origem, entretanto, remonta a milhares de anos antes, nas ações de duas mulheres, Shifrá e Puá. Com sua coragem não declarada, mereceram um incomparável tributo entre os heróis da vida moral. Elas nos ensinaram a primazia da consciência sobre o conformismo, da lei da justiça sobre a lei do país.
Neste Pêssach, contemos a história das mulheres cuja fé, coragem e recursos morais tornaram possível o êxodo. "Foi por causa de mulheres justas," disseram os sábios, "que nossos ancestrais foram redimidos do Egito." Sua memória ainda tem o poder de trazer-nos inspiração.

Por Rabino Jonathan Sacks
Lord Rabino Jonathan Sacks, antigo Rabino Chefe da Grã-Bretanha e da Comunidade Britânica, além de famoso escritor e palestrante sobre Chassidismo. É fundador e diretor do Meaningful Life Center (Centro para uma Vida Significativa).


Fonte: Thais Soltanovitch Druker

Nenhum comentário:

Postar um comentário