sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ruach Hakodesh.

22, de Junho de 2017.

Ruach Hakodesh, Espírito de D'us na Tradição Judaica.
"...e o meu espírito permanecerá entre vós...." Tomarei os termos usados que fazem referência ao Espírito de D'us e o modo como que a literatura judaica os interpreta. Meu "estudo-analise" é  uma exposição de alguns dos aspectos da visão judaica sobre o "Espírito", evitando estabelecer uma relação ou usar critérios que são próprios do cristianismo, sobre o Ruach Hakodesh (Espírito Santo). Para isso, terei por base citações da Torá (Pentateuco) e dos comentários rabínicos da Escritura, anterior à destruição do Templo (ano 70) e posterior, até a Idade Média. 
O termo "espírito" assume na fé e literatura  judaica diversos sentidos, variando com o texto e com o sentido  de seus autores. Mesmo que a tradição judaica interprete a Torá como uma obra unitária, sem emendas, as interpretações feitas pelos mestres permitem-nos compreender o desenvolvimento do termo "espírito" no decorrer da história do povo judeu até os dias atuais. Tais interpretações e sentidos, mesmo feitos há mais de dez séculos, revelam a sua atualidade e permanência da Palavra judaica. No Tanah (Antigo Testamento) e nos escritos rabínicos, o termo Ruach haKodesh, Espírito Santo (ou Espírito de D'us), foi pouco usado. Usou-se mais o termo ruach, vento, sopro, hálito, fazendo referência ao dom da vida, como um indicativo da origem divina da vida. Outro termo usado é Bat Kol, Filha da Voz, ou apenas Kol, a Voz, isto é, a Voz de D'us. E também Shechiná, Divina Presença. Este termo foi usado, possivelmente, pela primeira vez, no Targum (tradução) de Onkelos. Na literatura rabínica substituiu as formas antropomórficas da Escritura que expressavam a presença ou a "interferência" de D'us. Logo no princípio da Torá, aparece o termo ruach no sentido de "vento"e "espírito". O conceito religioso judaico de ruach está relacionado com o "hálito", hálito de D'us. D'us enche o universo com o seu hálito de vida, assim, todas as criaturas ganharam vida a partir da vontade do Criador. Ele é fonte de toda a vida. Entre as criaturas e Criador há uma relação de dependência e profunda intimidade: Então Hashem, D'us modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente Bereshit ( Gn )2:7. 
Desta narrativa muitos são os ensinamentos rabínicos. Tomemos aqui três deles:  D'us criou o primeiro homem, o homem original (Adam Kadmon) do pó da terra. Para isso Ele pegou pó dos quatro cantos da terra, estabelecendo assim, a universalidade do ser humano.
Num outro comentário, D'us, ao moldar o homem, usou terra tirada do local onde seria mais tarde construído o altar do Templo. Com isto pode-se deduzir o caráter de santidade atribuído ao homem, conceito que se reforçou com a destruição do Templo, daí podem os rabinos afirmar que a destruição do ser humano é comparável à destruição do Templo, tal o grau de santidade atribuído a ele. Com a inexistência do altar, os sacrifícios passaram à própria vida individual e comunitária do povo judeu. 
D'us modelou do pó da terra e insuflou em suas narinas, ora, para insuflar precisou o Criador curvar-se e soprar nas narinas o hálito da vida, isto acusa uma intimidade única com o homem, aquele que recebeu, de um modo especial, o precioso dom da vida, relação: Foi o espírito de D'us que me fez, e o sopro de El Shaddai que me animou. Iov (Jo) 33:4. O "pó da terra" e o "hálito" , estes dois elementos em equilíbrio são constitutivos da natureza humana: matéria e espírito. Assim, o homem não está limitado às coisas inferiores e efêmeras (terrenas), mas também está destinado à coisas superiores, à eternidade. As interpretações judaicas que indicam a universalidade, a santidade e a imortalidade do ser humano, apontam também para a superação das barreiras formais da religião, raça, cultura; aludem para um tempo além, a era messiânica. O espírito santificador, unificador, e que estará presente na redenção. O vento  D-us, soprou do Leste, no deserto, permitindo a fuga dos o hebreus do Egito: ... E Hashem, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez o mar se retirar. Shemot (Ex) 14;21. Este vento foi capaz de operar milagres, de alterar a ordem natural das coisas, o vento fez da providência divina algo audível e visível. É o mesmo ruach que pairou sobre as águas, que soprou na história do dilúvio: ...D'us fez passar um vento sobre a terra e as águas baixaram. Bereshit (Gn) 8:1. No comentário de Rashi, este vento é o "espírito de consolação" que afasta o sofrimento, liberta os cativos, e restitui a natureza. É possível então, interpretar a libertação do Egito como uma "nova criação", agora não mais uma criação individual, mas coletiva, é a criação de um povo. Aos hebreus cativos foi lhes restituída a vida. O homem anulado pela escravidão está em estado semelhante ao pó da terra, "inanimado", semelhante ao morto; mas o ruach, hálito vivificador, dá ânimo, vida. Essa vida nova, "soprada" na libertação do Egito encontra sentido na intimidade e no compromisso da Aliança.
No relato bíblico da Revelação no Sinai, a Palavra entra em cena num cenário de força e mistério. A narrativa conduz todos os olhares para o Monte Sagrado. Afinal, é o momento da Revelação, único na história de Israel. A Palavra é a presença de D'us, a voz divina a falar ao povo que estava ao pé do Sinai. Com a Palavra tem início uma relação eterna entre D'us e Israel. Surge, então, um verbo que é fundamental na vida judaica: Shemá, ouve. Um imperativo divino que antecede toda Palavra que sai da boca de D'us. Mesmo que o verbo não esteja escrito, é necessário que cada judeu "ouça". Disso depende a vida de Israel, uma vida que foi moldada pela Palavra Criadora, e que todo judeu reconhece. Daí a autoridade da Torá (Pentateuco), dos Profetas, dos Mestres; todos pronunciaram, viveram e ensinaram a Palavra. As interpretações rabínicas do acontecimento no Sinai apontam tanto para o privilégio da escolha de Israel como para o caráter universal da Revelação. As palavras no Sinai foram pronunciadas a toda humanidade, como disse Rabi Yohanan: "A voz partia e dividia-se em setenta vozes, em setenta línguas, para que todos os povos ouvissem-na". Mas a voz era ambivalente, dava vida a uns e matava a outros. Um paradoxo? A voz, espírito divino, é capaz de dar a vida e também matar? Esse trato é dado ao espírito no Antigo Testamento. Assim como D'us é fonte de vida, conseqüentemente, aquele que dele se afasta, que vai para longe de seu "sopro vital" acaba morrendo. Este morre sufocado pelo distanciamento de D'us e pela fatal opção por outros deuses. Não é possível haver vida longe de D'us, uma idéia que tão é judaica quanto cristã. O Espírito/Palavra de D'us é verdade e vida, longe: onde não há verdade, também não há possibilidade de existência. "... o meu espírito está sobre ti e as minhas palavras que pus na tua boca não se afastarão dela, nem da dos teus filhos...".(Yeshayahu Is.59:21).
Os profetas "abriam a boca e falavam" a Palavra de D'us, da Torá. Diferentemente de Moisés, aprendiam a Palavra através dos anjos, de sonhos, mas nunca a captavam diretamente de D'us. Isto só coube a Moisés. Eles não falavam quando tinham vontade, mas somente quando, em estado de concentração, vibrantes ou em profunda solidão, eram capazes de profetizar. Conforme os ensinamentos judaicos Moisés foi o único a falar com D'us face face, boca a boca. Só a ele D'us falou sem enigmas. Isto não diminui o poder da Palavra, ao contrário, reforça a sua autenticidade e originalidade que, quando dita pelos profetas, dá a possibilidade do mesmo Espírito falar nas diversas condições da existência humana, de se fazer presente na história de Israel através dos ensinamento de seus mestres. 
Os autores das escrituras  ao se referirem ao Espírito, à Divina Presença à atuação de D'us... expressaram-se muitas das vezes, com termos antropomórficos. Esses termos foram substituídos pelos rabinos a partir do período do segundo Templo, que em seus ensinamentos, passaram a usar Shechiná que, longe do antropomorfismo, determinava a presença de D'us no meio do povo de Israel. O termo Espírito Santo é uma expressão adotada pelos cristãos que aparece nos escritos anteriores à ruptura entre o cristianismo e o judaísmo. Shechiná, então, substituindo Espírito Santo cristão, passou a significar a Presença Divina no meio do povo judeu. A existência de dois termos, um cristão e outro judaico, indicam uma interpretação exclusivista, que deu origem a uma "apropriação" por uma parte, e conseqüente "desapropriação" da outra, isto é, numa interpretação cristã, o Espírito, por castigo, estava afastado dos judeus e somente presente entre aqueles que aceitaram a "nova" Aliança. Da parte judaica, a Shechiná, passava, com ela, uma expressão da perenidade da Aliança com Israel. Tal exclusivismo foi alimento para uma história trágica entre os dois credos. A palavra Shechiná significa literalmente "habitar", deriva do verbo shachan, habitar. O uso do termo significa que "D'us habita no meio do povo". A Shechiná habitava o Templo de Jerusalém, centro da vida nacional, da identidade religiosa do povo judeu; era o coração que pulsava e aninava a todo Israel. Como o hálito divino  em Adão, ânima, assim era o Espírito no corpo da comunidade. No texto bíblico, D'us manifesta o desejo de "habitar", de permanecer entre os filhos de Israel: Faze-me um santuário, para que eu possa habitar no meio deles (Ex 25:8).
Portanto, Shechiná não é um termo indicativo de uma simples presença, mais do que isso, a sua presença está condicionada a uma intimidade mútua que reflete o caráter da Aliança, "um matrimônio", entre D'us, que deseja estar no meio dos filhos de Israel, e Israel que deseja a Sua presença. Os tanaítas apresentaram o termo Shechiná em referência à manifestação do Senhor e à sua proximidade ao homem: Pois Hashem teu D'us anda pelo acampamento para te proteger e para entregar-te os inimigos Devarim (Dt 23:15); Porei no vosso íntimo o meu espírito e fareis com que andeis nos meus estatutos e guardeis as minhas normas e as pratiqueis (Ez 36:27); Habitarei no meio dos filhos de Israel e serei o seu D'us
 (Ex 29:45); A Shechiná refere-se especialmente a "habitação", uma presença ativa de D'us entre israel, na Terra de Israel e no Templo de Jerusalém. Sobre Shwmot
 (Ex 29:42), Rashi faz o seguinte comentário: DE CONTINUIDADE (CONTÍNUO). De dia em dia, não haverá uma interrupção de um dia entre eles. ME ENCONTRAREI CONVOSCO. Quando eu fixar um prazo para falar a ti. Ali fixarei para vir (Shechiná)...o Divino, abençoado seja Ele falava com Moisés desde que foi erguido do Tabernáculo.... O Tabernáculo, futuro Templo em Jerusalém, é comparado ao salão real onde o rei dirige sua palavra aos súditos. E ME ENCONTRAREI LÁ (Ex 29:43) Me encontrarei com eles com fala, como um rei que fixa um lugar de encontro para falar com os seus servos lá. No deserto D'us falava com Moisés, mais tarde, em Jerusalém a voz divina vem através da Torá ensinada pelos Profetas e Mestres, conforme está escrito:... de Sion há de sair a Lei, e de Jerusalém, a Palavra de Hashem yeshayahu
(Isaias 2:3) O Targum Jonathan, sobre o (Ex 29:43), faz um paralelo com (Lev 10:3), trata a Divina Presença como aquela que santifica aquele que dela se aproxima12. Mas, nem todos os estudiosos e comentaristas judeus concordaram com a afirmação de que a Shechiná significa a presença de D'us. Para Iehuda Halevi e Maiomônides ela é uma criação divina que não pode ser identificada com D-us. Já para Nachmanides a Shechiná é um substituto do nome divino usado em contexto especial para determinar a sua proximidade com o homem. Gershon Scholem sustenta que, após um exame de todas as passagens da Escritura referentes a Shechiná, ela não é um atributo divino como poderia sugerir algumas interpretações, também não é hipostasia e não tem existência separada da Divindade. 
O judaísmo não admite qualquer sugestão que possa gerar interpretações dualistas. Shechiná é o termo para designar a presença de daquele que é um. A destruição do Templo no ano 70 da era cristã, marca o exílio da Shechiná ( Shechiná b'Galuta) ou, D'us apartado de Israel. Os Profetas trataram desse afastamento: sempre que há pecado, há sofrimento, há o afastamento da Shechiná, ausência de D'us. A "ausência de D'us" é uma noção criada no momento em que o judaísmo deveria passar por uma transformação radical, longe da Terra de Israel e de Jerusalém, sofreria um areestruturação tanto em sua organização formal quanto na sua teologia. Há escritos em que se atribui a destruição do Templo, e conseqüente afastamento da Shechiná, aos pecados cometidos pelos filhos de Israel. Esta "ausência" explicou também os outros trágicos momento da vida do povo judeu, como à insuportável vida na Idade Média, nos Progons e na Shoá (Holocausto). R. Isaac b. Samuel disse em nome de Rab: A noite tenha três vigílias, e em cada vigília o Santo Único, bendito seja Ele, senta-se e ruge como um leão dizendo: Ai dos filhos, por causa de seus pecados Eu destruí minha casa e queimei meu Templo e os exilei entre as nações do mundo.Neste pequeno texto do Talmud há um detalhe importante: Ai dos filhos, ora, esse "ai" é um lamento, uma dor que também pertence a D'us. Assim como os filhos sofrem a ausência do pai, também o pai sofre por estar ausente. Conforme lemos anteriormente, D'us quer, e faz questão de ser presença em Israel. Então, a Shechiná não se manifesta após a destruição do Templo? Rabi Akiva, século II d.C., oferece uma resposta para esta questão. Ele disse que D'us não se afastou de Israel no exílio após a destruição do Templo. D'us estava igualmente exilado e dividindo com Israel o seu sofrimento. Outros escritores que confirmam esta mesma idéia: Zavdi ben Levi abriu: D'us instala o solitário numa casa Tehilim (Sl 68:7). Tu verificas que Israel, até ser libertado do Egito, morava de um lado e Shechiná, do outro. Quando Israel foi libertado, tornaram-se um só. E, desde que condenada ao exílio, a Shechiná ficou de novo de seu lado e Israel do seu, como foi escrito: Os rebeldes permanecem no solo árido (Tehilim Sl 68:7). Por isso está esxcrito: Como está sentada solitária? Então, mesmo na "ausência", há a presença da Shechiná em Israel. A solidão e o sofrimento são sentimentos mútuos. Rabbi Abbahu interpretando o salmo 13:6; "Meu coração exulte com a tua salvação"disse: "...Nós seremos redimidos juntos". O sofrimento mútuo abrirá as portas da redenção para D'us e Israel. A noção de "prêmio e castigo" que foi sugerida como explicação do conseqüente sofrimento de Israel não é condizente com a experiência religiosa judaica de um D'us amoroso, cheio de misericórdia e compaixão, não se enquadra dentro daquilo que a Escritura hebraica testemunba. D'us não abandona a Aliança feita com os Patriarcas, reiterada no Sinai. Ele, através de Sua Divina Presença, a Shechiná, permanece sempre a té a realização definitiva do projeto de salvação. E, no exílio, onde poderia estar Shechiná? Não há um lugar. Após a destruição do Templo o "lugar", a noção de lugar determinado não existe. Há um "lugar", uma atividade especial, segundo a Mishná, que é o estudo, a oração. Estes são os "locais" da presença divina. Onde estiverem pessoas reunidas, ocupando-se com as palavras da Torá, lá estará a Shechiná. A Torá é compreendida como agente pelo qual se torna possível a imanência de D'us. Através dela D'us está próximo, seu amor é realizável e a comunhão com Ele é possível. Enquanto Israel mantiver sua unidade, um só povo, unido pela consciência de ser povo eleito do D'us, que, por sua vez escolheu livremente ao D'us Único, que se mantém em torno de valores da tradição fundamental na Torá e no Talmud, sempre terá em seu meio a presença unificadora da Shechiná. A permanência histórica da comunidade judaica é, com certeza, a prova de que o espírito consolador, referido por Rashi, é também o espírito da permanência, da unidade, do sustento. Toda tragédia e infâmia experimentada pelo povo judeu não foi o suficiente para derrotar a confiança inabalável de Israel na fiel Presença. O Ruach, hálito divino e fonte da vida, a Torá, Palavra revelada, ouvida, guardada, meditada, transmitida, foi e é o novo "lugar" da presença íntima, solidária do D'us que não se cansa, nem se arrepende de caminhar com os filhos de Israel.

Fonte: Luiz Gomes Hohenzoller.
Palestra dada no auditório menor da ARI,
 Rio de Janeiro 22/06/2017.

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