quarta-feira, 29 de março de 2017

“Havia um bando de ladrões".

“Havia um bando de ladrões que
aterrorizava os habitantes de um distante reinado. Mas após uma longa caçada, o rei finalmente conseguiu prender o bando e todos os ladrões foram jogados na prisão.
Alguns ladrões continuaram sonhando com a liberdade e, apesar da prisão ser considerada impossível de escapar, eles continuavam motivados e ficavam o tempo inteiro tramando planos de fuga e esperando a oportunidade certa. Mas os outros ladrões com o tempo se acomodaram, se acostumaram com a ideia de que estavam presos e que sua liberdade havia acabado para sempre.
Certo dia, os portões da prisão amanheceram abertos. Tudo o que faltava para a sonhada liberdade era apenas se levantar e sair da prisão. Aqueles que ansiavam pela liberdade assim fizeram, e facilmente escaparam. Mas os outros, apesar das portas abertas, permaneceram na prisão, e pelos mais variados motivos. Alguns não acreditaram que as portas da prisão estavam realmente abertas. Outros tiveram medo de sair por causa do desconhecido, não sabiam o que os esperaria do lado de fora. E um terceiro grupo permaneceu na prisão apenas pela força do hábito. Já estavam tão acostumados com a ideia de estarem confinados dentro daquela estreita cela que já não podiam mais se imaginar completamente livres”
Assim acontece conosco. Vivemos em uma prisão, mas que está trancada apenas em nossas mentes. Uma prisão que nos limita, que não nos deixa crescer, que não nos deixa perceber nosso verdadeiro potencial. Se quisermos a liberdade verdadeira, o primeiro passo é querer sair. Pois uma das piores desgraças para o ser humano é quando abrimos mão da nossa liberdade e aceitamos viver uma vida de prisioneiros, mesmo quando as portas para escapar estão completamente abertas...

(Do mural do Sami R. Por Rav Efraim)

terça-feira, 14 de março de 2017

Honestidade.

 "O príncipe de certo reinado estava às vésperas de ser coroado rei, mas de acordo com as leis locais ele deveria ser casado para poder assumir o trono. Então ele convocou todas as moças jovens do reinado para que disputassem o cargo de futura rainha. Entre as moças que se apresentaram no palácio real estava Chana, uma jovem muito bonita mas muito pobre, que mesmo sabendo que tinha poucas chances de ser escolhida, resolveu participar da disputa. Quando Chana chegou ao palácio, lá estavam todas as mais belas moças, com as mais lindas roupas e finas joias. O príncipe então anunciou o desafio:

- Será entregue um vaso com uma semente para cada uma de vocês. Aquela que dentro de seis meses me trouxer a mais bela flor cultivada será escolhida como minha esposa e futura rainha.

Chana cuidava da sua semente com muita paciência e carinho. Mas passaram-se três meses e nada brotou. Ela tentou de tudo, usou todos os métodos que conhecia, mas nada adiantava. Ela saía na rua e via as flores das outras mulheres, crescendo e se tornando cada dia mais bonitas, e desanimava. Pensou em fazer algo desonesto e plantar outra semente, já que a sua não brotava. Porém, seus pais eram pessoas muito corretas e, ao escutarem seu plano, convenceram-na de que não valia a pena mentir, mesmo que o preço fosse perder a chance de se casar com o príncipe. Os seis meses se passaram e Chana não havia conseguido cultivar nada. Consciente do seu esforço e dedicação, mesmo sem nada para mostrar ao príncipe, ela decidiu retornar ao palácio na data e hora combinadas, levando seu pequeno vaso vazio.

Todas as pretendentes estavam lá, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. O príncipe observava tudo com muito cuidado e atenção, e as pretendentes abriam um enorme sorriso ao mostrar, orgulhosas, suas belas flores cultivadas. Quando o príncipe viu o vaso vazio de Chana, não pôde deixar de notar a expressão de vergonha e tristeza no rosto dela. Após verificar os vasos de todas as jovens que haviam comparecido, o príncipe anunciou o resultado: Chana seria sua futura esposa. Ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela moça que nada havia cultivado! Então ele calmamente esclareceu:

- Em um lugar onde a mentira e a enganação estão presentes com tanta força, esta moça foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma rainha: a flor da verdade. As sementes que eu entreguei para todas as mulheres eram estéreis, e não poderiam ter brotado nada..."

Estamos constantemente expostos a maus exemplos. A enganação, o roubo, a desonestidade e a traição estão cada vez mais presentes no nosso cotidiano. Temos que transformar nossas casas em verdadeiros santuários, nos quais apenas os bons valores podem entrar, para tentar nos proteger de toda esta má influência.

 Fonte: Blog do Rav Efraim Birbojm.



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quinta-feira, 9 de março de 2017

Como se remotiva pessoas desanimadas?

 Por Rabino Jonathan Sacks:

Como se remotiva pessoas desanimadas? Como se juntam novamente as peças de uma nação alquebrada? Esse foi o desafio de Moshê na Parashá desta semana.

A palavra chave aqui é vayakhel, “[Moshê] reuniu.” Kehilá significa comunidade. Uma Kehilá ou kahal é um grupo de pessoas reunidas para um determinado objetivo. Aquele propósito pode ser positivo ou negativo, construtivo ou destrutivo. A mesma palavra que aparece no início da Parashá desta semana como o início da solução, apareceu na Parashá da semana passada como o início do problema: “Quando o povo viu que Moshê estava demorando tanto para descer da montanha, se reuniu ao redor de Aaron e disse: ‘Faça para nós um deus para nos liderar. Quanto a esse homem, Moshê, que nos tirou do Egito, não sabemos o que aconteceu com ele.’”

A diferença entre os dois tipos de comunidades é que uma resulta em ordem, a outra em caos. Ao descer a montanha para ver o bezerro de ouro, lemos que “Moshê viu que as pessoas estavam ficando loucas, e que Aaron as tinha deixado perder o controle e assim se tornarem motivo de riso para seus inimigos.” O verbo significa “perder, descontrolar, irrestrito.”

Há uma assembleia que é disciplinada, orientada e com sentido. E há uma assembleia que é uma multidão. Tem vontade própria. Pessoas em meio a multidões perdem seu senso de autocontrole. São levadas por uma onda de emoção. Os processos normais de pensamento deliberativo são ultrapassados pelas sensações mais primitivas ou pelo grupo. Ou seja, os neurocientistas chamaram de “sequestro da amídala”. As paixões saem do controle.

Há famosos estudos sobre isso: Extraordinários Delírios Populares e a Loucura das Multidões (1841, de Charles Mackay: A Multidão: Um Estudo da Mente Popular, (1895) de Gustave Le Bon; e Instintos do Rebanho na Paz e Na Guerra (1914) de Wilfred Trotter. Uma das obras mais assombrosas sobre o tema é do vencedor do Prêmio Nobel Judaico Elias Canetti, Multidões e Poder (1960, traduzido para o inglês em 1962).

Vayakhel é a reação1 de Moshê ao selvagem abandono da multidão que se reuniu ao redor de Aaron e fez o bezerro de ouro. Ele faz algo fascinante. Não se opõe ao povo, como fez inicialmente quando viu o bezerro de ouro. Em vez disso, usa a mesma motivação que os moveu. Eles queriam criar algo que fosse um sinal de que D'us estava entre eles, não nas alturas de uma montanha mas no meio de um acampamento. Ele apela ao mesmo senso de generosidade que os fez oferecer seus ornamentos de ouro. A diferença é que agora eles estão agindo segundo a ordem de D'us, não pelos seus sentimentos espontâneos.

Ele pede aos israelitas para fazerem contribuições voluntárias para a construção do Tabernáculo, o Santuário, o Mishcan. Eles o fazem com tanta generosidade que Moshê tem de ordenar que parem. Se você quiser inclinar seres humanos para que ajam pelo bem comum, faça com que construam algo juntos. Faça com que assumam uma tarefa que possam fazer somente em conjunto, que ninguém possa fazer sozinho.

O poder desse princípio foi demonstrado num famoso exercício de pesquisa sócio-científica feito em 1954 por Muzafer Sherif e outros da Universidade de Oklahoma, conhecido como o experimento “Ladrões da caverna”. Sherif queria entender a dinâmica de grupo de conflito e preconceito. Para isso, ele e outros pesquisadores selecionaram um grupo de 22 meninos brancos de 11 anos, que não conheciam uns aos outros. Foram levados a um longínquo acampamento de verão em Robbers Cave State Park, Oklahoma. Foram separados aleatoriamente em dois grupos.

Inicialmente, nenhum grupo sabia da existência do outro. Ficaram em cabines distantes. A primeira semana foi dedicada a construir a equipe. Os meninos andavam e nadavam juntos. Cada grupo escolheu um nome - tornaram-se As Águias e as Cascavéis. Pintaram os nomes nas camisas e bandeiras.

Durante quatro dias foram apresentados uns aos outros por meio de uma série de competições. Houve troféus, medalhas e prêmios para os vencedores, e nada para os perdedores. Quase de imediato houve tensão entre eles: xingamentos, provocação e canções depreciativas. Então ficou pior. Um grupo queimava a bandeira do outro e desmantelavam suas barracas. Não queriam comer junto com os outros no mesmo recinto.

O Estágio 3 foi chamado de “fase de integração”. Foram arranjadas reuniões. Os dois grupos assistiram a filmes juntos. A esperança era que esses encontros face a face diminuíssem a tensão e levassem à reconciliação. Não deu certo. Vários deles brigaram, atirando comida uns nos outros.

No Estágio 4, os pesquisadores forjaram situações nas quais surgia um problema que ameaçava ambos os grupos simultaneamente. A primeira era um corte no fornecimento de água no acampamento. Os dois grupos identificaram o problema separadamente e se reuniram no ponto onde o corte tinha ocorrido. Trabalharam juntos para removê-lo e celebraram juntos quando conseguiram.

Em outro, os dois grupos votaram para assistir alguns filmes. Os pesquisadores explicaram que os filmes custariam dinheiro para alugar, e que não havia fundos suficientes para isso. Os dois grupos concordaram em contribuir com uma parcela igual.

Num terceiro, o ônibus no qual viajavam parou, e os meninos tiveram de trabalhar juntos para empurrá-lo. Quando os testes terminaram, os meninos tinham parado de ter imagens negativas do outro grupo. No ônibus de volta para casa, os membros de uma equipe usaram o dinheiro do prêmio para comprar bebidas para todos.

Resultados semelhantes surgiram de outros estudos. A conclusão é revolucionária. Você pode transformar até facções hostis num único grupo coeso desde que eles enfrentem um desafio partilhado que todos possam conseguir juntos, mas nenhum sozinho.

Rabi Norman Lamm, ex-presidente da Yeshiva University, disse certa vez que conhecia uma piada na Mishná: a declaração de que “eruditos aumentam a paz no mundo.”2 Os rabinos são conhecidos por discordarem. Como, então, pode-se dizer que eles aumentam a paz no mundo?

A passagem não é uma piada mas sim uma verdade calibrada. Para entendê-la, devemos ler a continuação: “Eruditos aumentam a paz no mundo, como está escrito: ‘Todos os seus filhos serão instruídos sobre o Eterno, e grande será a paz de seus filhos.’3 Não leia “seus filhos” [banayich], mas “seus construtores” [bonayich].” Quando os eruditos se tornam construtores, criam a paz. Se você procurar criar uma comunidade com pessoas fortemente individualistas, terá de transformá-las em construtores. Foi isso que Moshê fez em Vayakhel.

Construção de equipe, mesmo após o desastre do bezerro de ouro, não é um mistério nem um milagre. É feito dando-se uma tarefa ao grupo, que fale às suas paixões e que nenhuma parte possa fazer sozinha, Deve ser construtiva. Cada membro do grupo deve ser capaz de fazer uma contribuição única, e então sentir que foi valorizado. Cada qual deve ser capaz de dizer, com orgulho: Ajudei a fazer isso.

Foi isso que Moshê entendeu e fez. Ele sabia que se você quer construir uma equipe, crie uma equipe que construa.

Notas

1. Eu quis dizer isso apenas no sentido figurado. A construção do Tabernáculo foi, é claro, ordem de D'us, não de Moshê. O fato de que é mostrado como um divino comando na Parashá Terumá, antes da história do bezerro de ouro, é para ilustrar o princípio de que “D'us cria a cura antes da doença” (Talmud, Meguilá 13b).

2. Talmud, Berachot 64a

3. Isaias 54:13

Rainha Esther.

Como rainha, ela entendia a regra de que governar não é controlar os outros, mas representá-los. Reservada. Modesta. Quieta. Humilde. Autocontrolada. Oculta. Estes adjetivos provavelmente não evocam imagens de uma heroína. Eles não parecem descrever o tipo de pessoa que colocaria sua vida em risco por outras, uma figura pública, uma entidade política, e uma pessoa de controle e poder. Mas são. Estas são as palavras que melhor descrevem a Rainha Esther, uma mulher cujo corpo, mente, alma e ações afetaram a realidade e mudaram o mundo.

Embora Esther tivesse ajuda e apoio de Mordechai para lutar contra o decreto que visava a destruir os judeus, foi Esther quem conseguiu implementar o plano e quem teve a visão e percepção de saber como aquilo tinha de ser feito. E foi ela quem insistiu para que a história de Purim fosse escrita e lida, ano após ano, pois ela sabia que sua relevância ao povo judeu seria sempre pertinente. É por isso que a Meguilá, o "Rolo de Esther", que tornou-se parte da Torá e que lemos durante o feriado de Purim, recebeu o seu nome.

Esther foi feita rainha contra sua vontade. Ela foi escolhida por sua excepcional beleza e mesmo assim, foi aquilo que o rei não viu que o atraiu a ela. A ex-rainha, Vashti, foi uma mulher que chamava a atenção para si exibindo seu corpo despido nas festas reais. Embora seu corpo fosse atraente, esta era sua única qualidade positiva. Quando ela foi incapaz de exibir sua beleza devido a um horrível eczema e bolhas na pele, ela nada teve a mostrar por si mesma, e em sua recusa a pavonear-se, não apenas perdeu sua posição como rainha, mas também sua vida.

Embora Esther supostamente tenha sido escolhida como rainha por causa da sua beleza exterior, os comentaristas escrevem que foi milagroso ela ser considerada atraente, pois sua aparência física na verdade era bem pouco lisonjeira. O Talmud nos diz que Esther possuía uma pele esverdeada, mas tinha um "quê gracioso" em si (Talmud, Meguilá, 13a). Aprendemos que quando alguém é elevado e belo interiormente, isso transparece ao seu exterior, e pode ser visto como beleza. Este é um dos principais temas em todo o texto de Eshet Chayil, "Uma Mulher de Valor" de Provérbios (Mishlê), que nos ensina: " O encanto é enganoso e a beleza é vã; mas uma mulher que teme a D'us – ela deve ser louvada."

"A verdadeira honra da princesa está no seu íntimo." A palavra para "íntimo", penimá, é a mesma para penimiut, o interior, a maquiagem espiritual da pessoa. Sua beleza era oculta sendo revelada no momento apropriado que salvaria todo o povo judeu. Vemos até que Esther chegou a extremos para ocultar-se fisicamente, pois não queria que o rei ficasse atraído por ela. E se não tivesse tido um motivo sagrado e necessidade de estar no palácio, então mais provavelmente ela teria sido vista apenas exteriormente, e neste caso ela jamais teria sido escolhida. Porém como ela definitivamente tinha um trabalho a fazer, para o qual D'us a escolhera como o conduíte para cumprir esta missão, seu interior foi visto; e neste caso, nenhuma outra mulher poderia ter competido com ela.

Assim, desde o início do envolvimento de Esther com o rei, fica claro que ele foi atraído à profundidade que havia nela, e foi através disso que ela conseguiu manobrar e fazer o que tinha de ser feito para salvar seu povo. Enquanto Esther está no reino, porém, ela não tem permissão de revelar a ninguém que é judia. Sob a Lei Judaica, se uma vida está em perigo, há brechas que permitem quebrar a Lei. Porém Esther assegurou-se de manter não apenas o espírito da lei naquelas circunstâncias, como também a letra da lei. Ela conseguiu criar um cronograma para ter sempre criadas diferentes no Shabat, para que nenhuma soubesse que durante este período ela estava fazendo algo diferente. Através do seu desejo de manter seu Judaísmo, ela descobriu uma maneira de fazer o que precisava. Nisso ela cumpre lindamente o princípio da Torá, de que "nada pode se colocar no caminho da vontade." (Zohar II, 162b).

Foi assim também que Esther pôde abordar o rei diretamente, embora ele não a tivesse chamado. Ela sabia que estava assumindo um risco, sabia que ele poderia mandar matá-la pela desobediência, mas ela sabia que era necessário, e que D'us a protegeria. Porém, embora Esther precisasse agir por si mesma, ela nunca sentiu que era a estrela do espetáculo. Sabia que tinha recebido uma missão e fora escolhida como um receptáculo, mas que era algo no qual não podia prescindir da ajuda de outras pessoas. Não somente ela procurou Mordechai para pedir conselhos e orientação, mas antes de abordar o rei, ela pediu a todo o povo judeu que jejuasse e rezasse pelo seu sucesso.

Como rainha, ela entendia a regra de que governar não é controlar os outros, mas representá-los. Ela somente poderia aceitar um risco de morte se estivesse agindo pela vontade e desejo de todo o povo judeu. Se ela fosse meramente agir sozinha, por seus próprios motivos e desejos, pensando que não precisava da ajuda de outros, é duvidoso se teria sido bem-sucedida.

E assim, quando ela entrou nos aposentos do rei, foi recebida, e não somente recebida, mas conseguiu pedir tudo que desejava, até a metade do reino dele.

O nome Esther em si é uma indicação de como ela levou sua vida e desempenhou seu papel. O radical de Esther em hebraico é hester, que significa "oculto". Muitas vezes pensamos que quando alguém está escondendo alguma coisa, é por constrangimento ou desconforto. O conceito atual é "se você tem algo, exiba-o".

Mostre ao mundo aquilo que tem para oferecer, esteja lá, torne-se público, quanto mais melhor. Não é tão excitante ser a heroína por trás das cenas. Porém os motivos da pessoa devem ser cuidadosamente examinados.

Se o desejo é mostrar a todos aquilo que você tem para oferecer, o que é capaz de fazer, então sim, é melhor que seja em público. Porém se o desejo da pessoa é utilizar a própria capacidade para um propósito mais elevado, para atingir um bem maior, não somente pelo próprio ego, então a melhor maneira de fazer isso é começar em particular, de maneira oculta, para que o objetivo possa ser atingido.

Ironicamente, Vashti representa de muitas maneiras o nosso modo de ver a mulher moderna. Ela é confiante, atraente, expansiva, corajosa e ousada. Não vê problemas em mostrar seu corpo despido numa sala repleta de pessoas, provocá-las e diverti-las. No entanto, sua meta é puramente auto-orientada. Ela se importa apenas com o próprio ego. É por isso que assim que o seu corpo não tem mais boa aparência, não é mais atraente para ser exposto em público, somente então ela o oculta.

Esther permanece escondida o tempo todo, mas com o propósito de poder ser vista. E quando ela é capaz de ser revelada, não é vista como um mero corpo para que outros usem e abusem, mas como heroína, alguém que representa o que é sagrado e como alguém que pensa não somente em si mesma, mas em seu povo. Como o Talmud nos ensina: "Uma bênção paira apenas sobre algo que está oculto ao olho" (Taanit 5b).

Embora possa ser empolgante estar nos jornais e revistas exibindo aquilo que você conseguiu, as maiores realizações são mantidas em segredo. As inovações e criações, sejam na Medicina, tecnologia, Ciência ou as militares, são "Altamente Secretas", "Estritamente Confidenciais" e mantidas sob o mais rigoroso sigilo.

Embora Vashti possa ter estado na capa de todas as revistas, foi Esther que estava por trás dos bastidores sendo a mulher que estava realmente mudando o mundo. Esther exemplificou a declaração: “Kol k'vudá bat melech penimá, "A verdadeira honra da princesa está no seu íntimo." A palavra para "íntimo", penimá, é a mesma para penimiut, o interior, a maquiagem espiritual da pessoa. Esta é Esther. Através do entendimento do verdadeiro significado de estar escondida, ela revelou uma mensagem ao povo judeu que permanecerá para sempre.

POR SARA ESTHER CRISPE

Povo judeu e a nação de Amelec.

Examinando o primeiro confronto entre o povo judeu e a nação de Amalec (Shemot 17:8-16) sobre o qual lemos em Shabat Zachor nesta semana que antecede Purim, duas perguntas básicas nos vêm à mente. Primeira, por que Amalec atacou os Filhos de Israel sem provocação? O versículo simplesmente relata que Amalec atacou os Filhos de Israel num local chamado Refidim, mas o que motivou este ataque? Segundo, por que eles mereceram esta súbita punição?

A primeira pergunta é respondida pelo Midrash, que compara o povo judeu a uma banheira de água fervente. Assim como ninguém ousa pular num recipiente de água fervente por medo de ser escaldado até a morte, assim também os judeus eram aparentemente invencíveis após seu milagroso êxodo, quando então as nações do mundo reagiam a eles com temor e respeito.

Ninguém ousava atacar o povo que tinha D’us a seu lado – exceto Amalec. Certa vez ele atacou, e embora tenha perdido, deram um jeito de esfriar a água para que outras nações também pulassem dentro sem medo de ser queimadas.

O que deu a Amalec a força para nos atacar? Rabi Yitschac Hutner desenvolve a resposta à primeira questão de outro Midrash, que compara Amalec a uma pessoa que zomba e ridiculariza tudo na vida. Uma personalidade assim procura toda oportunidade de minar e diminuir o que é importante e valioso na sociedade.

As Dez Pragas, a Abertura do Mar Vermelho, a destruição do Egito, o maná caindo do céu – todos estes eventos que haviam criado um senso de reverência e trepidação nas outras nações em relação aos judeus, fazendo a água da banheira mais e mais quente, apenas aumentou o desejo de Amalec de ser o primeiro povo a pular dentro. Para Amalec esta banheira fervente de grandeza, espiritualidade e nobreza tinha de ser esfriada, independentemente das conseqüências.

Voltemos agora a nossa segunda questão. Por que os judeus mereceram ser atacados por Amalec?

A chave para entender esta falha específica é o nome da localidade onde Amalec atacou-nos – Refidim. Embora num nível simples este nome seja meramente uma localização geográfica, o Midrash nos diz que é um acrônimo para "rafu y'dayhem min haTorah – as mãos do povo judeu foram fracas no seu apoio à Torá."

O que significa esta expressão? O termo costumeiro para a falta de estudo de Torá é bitul Torah, negligenciar o estudo de Torá. Qual é então a idéia por trás de dizer que suas mãos eram fracas no seu apoio à Torá?

Rabi Yitschac Hutner explica que esta expressão refere-se a uma fraqueza em reconhecer e apreciar a importância e relevância da Torá em nossa vida. Quando deixamos de perceber como a Torá é vital para nossa própria existência e para a existência do mundo inteiro, estamos convidando Amalec a entrar em nosso meio.

Não apenas devemos estar preocupados com o quanto de Torá aprendemos, mas também com quanto valor e importância atribuímos à Torá que estudamos.

Percebemos que a Torá é sabedoria Divina? Percebemos que a Torá sustenta o mundo inteiro? Percebemos que a suprema perfeição do mundo apenas pode chegar através da Torá?

Que D’us nos ajude a aumentar nosso tempo de estudo de Torá e a avaliar sua verdadeira e ilimitada grandeza.
Tzom Kal.

terça-feira, 7 de março de 2017

Purim

Quando Mashiach - (Messias) chegar todas as festas judaicas serão  canceladas. A única festa que nunca vai cessar de existir é Purim. Purim não é "carnaval judaico". É um dia muito sagrado e importante. Poder da reza neste dia é comparado com o de Yom Kipur. Nossa obrigação neste dia é de sermos alegres e bem-humorados, mandarmos presentes um ao outro, fazermos uma refeição festiva e escutarmos Meguilat Ester.
Um dos costumes muito antigos neste dia é de comer "oznei haman" ou "homentashn" em Iídiche. Qual é significado deste costume?
Uma teoria plausível para a etimologia do hamentaschen, é que eles sempre foram classicamente preenchidos com sementes de papoula ao mel, mohn em iídiche. E uma vez que tasch é um bolso em iídiche, os homentaschen podem ter sido originalmente conhecidos como mohntaschen. (Sefer Matamim, Purim 2).
Por que esses "bolsos de papoula" costumavam ser consumidos em Purim? Foi em cumprimento de um costume comer sementes em Purim. Como o Livro de Daniel (Cl 1) registra, quando Daniel, Hanânia, Misael e Azaria foram forçados a servir na corte de Nabucodonozor, Daniel pediu que lhes fossem dadas sementes e água, para que não tivessem de se contaminar com comida não-kosher. Seu pedido foi relutantemente concedido, e eles prosperaram em sua dieta limitada (mas bastante saudável). O Talmud também registra que Ester comia sementes, a fim de manter kosher no palácio de Achashverosh. (Megillah 13a). Em comemoração disso, nasceu o costume de comer sementes em Purim (Rema O.C. 695: 2)
(Com base nisso, hamentaschen devem realmente serem preenchidos com sementes - como sempre eram tradicionalmente feitos. As receitas muito mais populares e exóticas de hoje - são recheios de geléias, chocolate, manteiga de amendoim, halva, caramelo, etc - foram inovações mais tardias.
Como costumes judaicos são sempre tão repletos de significado (bem como de geléia), outras alusões fascinantes foram escondidos em hamentaschen. Homentaschen nos trazem uma dica sobre a mão da providencia Divina que estava presente ocultamente dentro dos eventos. Em vez de realizar milagres abertos, Deus guiou silenciosamente o curso dos eventos para trazer nossa salvação.
Uma sugestão igualmente fascinante é que Mordechai tentou despertar os judeus do império de Ahasuerus , para o arrependimento, enviando cartas avisando-os sobre os terríveis acontecimentos. Mas ao invés de enviar as cartas abertamente e chamar muita atenção para seus esforços, ele enviou-os secretamente, escondidos dentro de doces! (Ambas as explicações aparecem no trabalho Menucha u'Kedusha (2:20).)
Uma visão adicional é oferecida com base no fato de que Purim é um feriado menor. Ao contrário dos feriados principais - Pessach, Sucot, Shavuot, Rosh Hashana, Yom Kipur, nós não somos restritos de executar o trabalho em Purim. Nós comemos assim uma pastelaria com um recheio escondido dentro dele, significando que embora no Purim exterior seja um dia regular, contem os "tesouros" - da santidade e das festas dentro. Este é semelhante ao costume de comer kreplach (bolinhos de massa recheada de carne) em dois outros feriados menores - a véspera de Yom Kippur e Hoshana Rabba (e alguns comem os em Purim também). (Baseado em Ta'amei HaMinhagim 895.)
Finalmente, os três cantos do hamentaschen podem aludir à luta de três vias entre Assuero, Hamã e Ester ou os três Patriarcas em cujo mérito fomos salvos (Otzar Dinnim u'Minhagim, baseado em Midrash, Sefer Matamim Purim 2).

PURIM SAMEACH!!

Texto de Rabino  Reuven Segal

Oznei Haman.

Para a massa

1 pote de iogurte natural
1 e 1/2 colher de essencia de baunilha
3 xícaras de farinha
200 g de manteiga gelada em cubos
1 gema de ovo
4 colheres de sopa de açúcar de confeiteiro
2 colheres de chá de fermento em pó

Recheio de Papoula

1 copo de leite
1/2 xícara de açúcar
cascas de 1/2 laranja
1 copo de semente de papoula
1/3 copo de nozes torradas e picadas grosseiramente
1/2 colher de chá de cointreau (opcional)
1 colher de chá de manteiga
1/2 colher de chá de essência de baunilha
½ colher de chá de canela

Acabamento
1 ovo batido

No mixer ou a mão coloque todos os ingredientes e misture até formar uma massa homogenea.
Cubra a massa com filme plástico e deixe descansar meia hora na geladeira.

Enquanto isso, prepare o recheio: coloque as raspas de laranja , açúcar e leite em uma panela em fogo médio. Moa as sementes de papoula no moedor de café, amaçe-as com um pilão. Quando o leite estiver quente, reduza o fogo bem baixo e adicione as sementes de papoula . Cozinhe até que as sementes absorver o leite ea mistura se torna espessa , cerca de 15 minutos.
Adicione o cointreau e a manteiga. Misture e cozinhe por mais 2 minutos. Junte o extrato de baunilha , canela, retire do fogo e deixe esfriar

Preaqueça o forno a 180 graus.
Abra a massa, use um cortador de biscoitos ou um copo e corte círculos
Coloque uma colher de chá de recheio no centro de cada um e feche os lados para formar triângulos. Pincele com ovo batido. Asse até a massa dourar, cerca de 20 mintutos.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Bom para refletirmos um pouco.

Já disse isso antes, que é preciso apenas uma pequena vela para trazer Luz a um quarto escuro.
Nós temos o poder de ser aquela pequena luz toda vez que escolhemos fazer a diferença na vida de uma pessoa.
Sermos essa vela não exige muito de nós – é a maneira como sorrimos, a maneira como dedicamos uns minutos para ajudar, a maneira como dizemos “obrigado”.
Nossa gentileza e nosso cuidado com os demais podem fazer uma diferença enorme.
Em um mundo que é, a qualquer momento, frio, escuro e doloroso para muitas pessoas, precisamos nos lembrar que aquela única vela pode trazer calor e Luz.
Como diz o antigo dito: ”Nenhum ato de gentileza, por menor que seja, jamais é desperdiçado.”
Por: Karen Berg

Reflexão

Que coleção de cicatrizes você tem? Nunca se esqueça de quem lhe deu as melhores. E seja grato. Nossas cicatrizes têm o poder de nos fazer lembrar que o passado foi real.
Hannibal Lecter

domingo, 5 de março de 2017

A morte de um inocente.

Então disse Davi a Natã:
Pequei contra Adonai.

E disse Natã a Davi:
Também o Adonai perdoou o teu pecado; não morrerás.
Todavia, porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos de Adonai blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá.

Então Natã foi para sua casa; e  Adonai feriu a criança que a mulher de Urias dera a Davi, e adoeceu gravemente.
2 Samuel 12:13-15

Para um inculto, parece que Elohim usa o menino como expiação pelo pecado de David, ou morte de vingança do Criador.

Observe o motivo pelo qual o Criador não permitiu que o filho de David nascesse.

David pagou um preço altíssimos por sua atitude de adultério. Somente quem perdeu um filho sabe a dor que é esta perda.

Mas o filho de David que estava no ventre da mãe não viu a morte.
Ele foi recolhido pelo Eterno.
Não viu pecado, o que é um prêmio  para o ser humano.
Logo, não recebeu punição.
A morte não é uma punição nunca, apenas o momento em que somos levados ao julgamento de nossas atitudes em vida.

Como um feto que não pode ainda ter contato com este mundo, ele nem é julgado.

Ao observarmos a as escrituras sagradas, não podemos ver apenas um lado da história, precisamos ver o todo.
O filho de David com batsheva, foi gerado de um adultério enquanto o marido dela estava vivo.
Elohim poderia ter permitido que este filho continuasse vivo para punir a atitude pecadora de David.

Se ele permitisse isto, o reino de David e a sua descendência seriam dizimados da terra, e a promessa de um reino de justiça segundo o Criador já não mais jamais existiria.

Note que a decisão de não permitir que isto acontecesse foi após o arrependimento de David e não antes.

Outro fator importante é preservar a escolha de Adonai por David, através de shemuel. Os povos todos iriam escarnecer e rir do Eterno por fazer uma escolha equivocada.
Mas Elohim não se equivocou ao escolher David, a prova disto é o seu humilde arrependimento de pecado.

Termino com um dos textos mais lindos das escrituras sagradas:

"Preciosa é à vista de Elohim a morte dos seus santos"
Salmo116:15

 Moshe Nicolaevsky

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Poder da sua Reza.

Para Refletir.

 De acordo com a sabedoria milenar do Judaísmo, todo judeu possui uma fé genuína em D"us.
 Ela permanece "adormecida" dentro da pessoa.O potencial é gigantesco mas subaproveitado.
Para desenvolver a fé é preciso rezar!

E o que significa rezar? Falar com D"us.Conversar com Ele sobre suas preocupações, necessidades, agradecimentos, pedidos, medos...Nossos sábios afirmaram que enquanto não exercitarmos isso, nossa fé não será completa.

E para que precisamos da Fé?

Para suportarmos os desafios da vida, sejam eles oriundos do trabalho, da família ou do estado físico-emocional. Nossos avós e antepassados tinham uma fé infinitamente superior e enfrentaram obstáculos árduos. Eles falaram  e desabafaram e nem perceberam que o faziam diante de Hashem. Muitos deles sabiam, outros não, que nesses momentos eles estavam rezando...


No relato da guerra contra Amalek, Moshé elevou suas mãos e o Povo de Israel vencia.( Shemot cap 17). Essa expressão das mãos elevadas significa rezar. De acordo com o Judaísmo, a reza pode mudar algo determinado pela natureza.

O Talmud afirma que o profeta Elisha fazia milagres por sua força nas rezas ( tratado Meguila 27).

Pude ensinar num semestre em nossa sinagoga um pouco da sabedoria do Rebe de Breslew . E com ele aprendemos que a fala é a ponte entre a força de vontade e a atitude.
 É bom falar em voz alta para você mesmo qual é o seu plano! E logo após,rezar e rezar!
Uma boa Tefilá tem o poder de levantar o seu espírito.

Moshé recebeu o decreto Divino de não entrar em Israel! O que ele fez? Rezou e rezou...foram 515 vezes até que, nesse momento, D" us pediu para ele interromper com esse pedido. Por que? Pois se ele rezasse 516 vezes conseguiria o seu objetivo.

Temos a pretensão de sermos atendidos imediatamente. Porém, de acordo com o pedido, não sabemos quanto de "reza"é necessário para sermos atendido.Vejam o caso de Moshé. É por isso que aquele que reza precisa ter muita fé .

Eis a razão para as rezas diárias na sinagoga.

Por: Rabino Samy Pinto

quinta-feira, 2 de março de 2017

Torá em Chinês

Por Lazer Gurkow

Trinta e sete dias antes de seu falecimento, Moshê começou a ensinar a Torá. Você poderia pensar que Moshê usaria suas semanas restantes para ensinar mistérios não revelados, mas ele não o fez. Em vez disso, ele traduziu a Torá em setenta idiomas.1

Tudo isso para um povo que nem sequer falava aquelas línguas. Você já frequentou uma palestra numa língua que não entende? Eu fui, e devo dizer que aquilo não me deixou inspirado. Por que Moshê ensinou a Torá em idiomas que seus alunos não entendiam?

Essa pergunta na verdade deveria ser feita a D'us. O Talmud ensina que D'us pronunciou os Dez Mandamentos em todas as setenta línguas, embora somente a versão em hebraico fosse ouvida.2 De que adiantou falar em idiomas que ninguém entendia, muito menos ouvia?

Essas perguntas são pertinentes quando consideramos que a Torá Escrita inclui muitas palavras em aramaico, grego, kapti e afriki3 – idiomas provavelmente desconhecidos para os judeus daquela época!

Talmud em Aramaico

Alguém poderia dizer que traduzir a Torá e os Dez Mandamentos em idiomas seculares pavimentaram o caminho para a religião judaica na diáspora. Mesmo que alguém argumente que a Torá deveria ser estudada e praticada somente em Israel, essas palavras estrangeiras iriam atestar que a Torá não é propriedade exclusiva de países com idioma hebraico. Mas isso não explicaria por que o Talmud foi escrito em aramaico. Pode-se argumentar que o aramaico era o idioma judaico daquela época, e nossos sábios escreveram o Talmud num idioma entendido pela maioria dos judeus daquele tempo. Mesmo assim, o fato de escrever no vernáculo supera o valor de documentar a Torá de D'us no idioma de D'us?

Origens Linguísticas

Os setenta idiomas foram formados na Torre de Babel bíblica. No ano 1996 da Criação (1765 AEC), os descendentes de Nôach se reuniram para construir uma torre da qual eles planejavam empreender guerra contra D'us. O grupo era perfeitamente unido em sua heresia, portanto D'us os dividiu.

D'us fez com que cada tribo tivesse sua própria linguagem. O grupo, agora dividido em linhas idiomáticas, não pôde mais cooperar no esforço conjunto. Incapazes de entender uns aos outros, as instruções e pedidos recebiam olhares vazios ou respostas incorretas. Logo se tornaram frustrados, e se dispersaram.4

É Apropriado?

A Torá toma nota do fato de que a Torre de Babel foi construída não de pedra, mas de tijolos.5 Por que isso é importante? Os mestres chassídicos explicam que tijolos são feitos pelo homem, mas as pedras são criadas por D'us. Esta é exatamente a diferença entre o hebraico e os outros idiomas. O hebraico é um idioma divino, suas letras foram formadas por D'us. Os idiomas seculares são produto da convenção humana.6 Isso reforça nossa pergunta original: D'us deveria ser adorado num idioma de convenção humana?

Além disso, essa história indica que linguagens seculares foram misturadas na herege Torre de Babel. Uma linguagem espalhada em heresia deveria ser usada num culto eclesiástico?

Tudo Deve Servir

Nossos sábios ensinaram que todo ser criado deve servir para aumentar a glória de D'us.7 Se isso é verdadeiro sobre objetos físicos, então certamente deve se aplicar também aos idiomas, até mesmo aqueles da convenção humana.

Além disso, letras e palavras são recipientes que contêm ideias, sentimentos e conhecimento. Como todo conhecimento vem de D'us, deve haver uma centelha de divindade em toda letra, independentemente do idioma. Se os idiomas seculares não são usados em culto eclesiástico, as centelhas divinas neles embebidas ficariam para sempre presas em seu molde secular.

Quando D'us pronunciou os Dez Mandamentos em todas as setenta linguagens, Ele ligou o vão entre as letras comuns e as letras da fé, e assim elevou o idioma secular para uso no serviço divino. De maneira similar, a tradução da Torá por Moshê em todas as setenta linguagens nos permitiu levar o secular e mundano para a santidade da Torá.8

Removendo a Barreira

Por que Moshê esperou quarenta anos antes de traduzir a Torá? Por que as traduções de D'us para os Dez Mandamentos não foram ouvidas pelas nações? Por causa de Sichon e Og, monarcas dos reinos Emorita e Bashanita.

As nações vizinhas pagaram esses poderosos e influentes reinos para defender suas fronteiras contra a abordagem judaica. Os místicos veem nesses reinos não apenas uma barreira física contra os judeus, mas também uma barreira espiritual contra a Torá. Sichon e Og resistiram à influência da Torá sobre as setenta nações e o uso da Torá nos setenta idiomas.

Quando esses poderosos reinos foram finalmente dominados,9 Moshê teve permissão de traduzir a Torá. A destruição deles marcou o fim de sua resistência. O caminho agora estava aberto para que o secular fosse santificado e o mundo fosse elevado. Os setenta idiomas podiam agora ser atraídos para o sagrado âmbito da Torá.10

É por isso que nossos sábios escreveram livros sobre Torá em idiomas seculares em vez de no idioma sagrado. O Talmud foi escrito em aramaico. Maimônides escreveu livros em árabe. Rashi com frequência traduzia palavras hebraicas para o francês. Essa tradição continua hoje, quando traduzimos e estudamos a Torá em inglês.

Toda vez que a Torá é ensinada num idioma secular, as letras e frases daquele idioma são atraídas para o âmbito do sagrado, e suas centelhas são redimidas. Isso gradualmente purifica nosso mundo e nos leva inexoravelmente mais perto do tempo da total revelação, a Era Messiânica.

NOTAS
1. Rashi sobre Devarim 1:5; ver Midrash Tanchuma, Devarim 2. Havia setenta nações nos dias bíblicos, daí as setenta linguagens.
2. Talmud, Shabat 88b.
3. Cf. Bereshit 31:47 e Shemot 13:16.
4. Bereshit 11:1-9.
5. Ibid. Versículo 3.
6. Veja Likutei Sichot, vol. 6, págs. 13-25.
7. Ética dos Pais 6:11.
8. Veja Shem Mishmuel (por Rabi Shmuel Bornsztain, Rebe de Sochatchov, 1855-1927) sobre Devarim 1:5, e Torá Ohr (por Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador do Chassidismo Chabad, 1745-1812), Shemot 87 b.
9. Bamidbar 21:21-35.
10. Veja Shem Mishmuel, ibid., e Sefat Emet (por Rabi Yehudah Aryeh Leib Alter de Ger, 1847-1905).
POR LAZER GURKOW

Rabino Lazer Gurkow é líder espiritual da congregação Beth Tefilah em London, Ontário. Tem feito muitas palestras sobre uma variedade de tópicos judaicos, e seus artigos são publicados na imprensa e online

Fonte: Chabad